quarta-feira, agosto 24, 2016

Canto heróico e fúnebre para o alferes caído na Albânia


(Fragmento)

I

Ali onde primeiro habitava o sol
Onde com os olhos de uma virgem se abriu o tempo
Quando do sacudir da amendoeira se enchia de neve o vento
E subiam ao cimo das ervas os cavaleiros

Ali onde pisava o casco de um plátano esguio
E uma bandeira crepitava no alto terra e água
Onde nenhuma arma pesava no ombro
Mas todo o cansaço do céu
O mundo inteiro brilhava como uma gota de água
De manhã, aos pés do monte

Agora, como dum soluço de deus alastra uma sombra.

Agora, a angústia recurvada com mãos ossudas
Toma e apaga uma a uma as flores por sobre si;
E nas ravinas onde as águas pararam
De fome de alegria jazem as canções;

Monges pedras de frios cabelos
Partem em silêncio o pão do ermo.

O inverno penetra até ao cérebro. Algo de mau
Se vai acender. Embravece a crina do monte.

Os abutres repartem lá em cima as migalhas do céu.

II

Agora sobe nas águas turvas uma agitação

O vento preso nas ramagens
Sopra ao longe a sua poeira
Os frutos cospem as suas sementes
A terra esconde as suas pedras
O medo escava uma mina e penetra correndo
No momento em que na mata dos céus
O uivar de uma nuvem-loba
Estende pela pele do campo uma tempestade de arrepios
E depois espalha espalha neve neve impiedosa
E depois corre enfurecida nas planícies em jejum
E depois põe os homens a saudar-se:
Fogo ou faca!

E para os que com fogo ou faca se moviam
Vai-se o mal acender aqui. Que não desespere a cruz
Mas, as violetas, que rezem longe dela.

III

Para eles a noite era um dia mais amargo
Fundiam o ferro, mascavam a terra
O Deus deles cheirava a pólvora e a pele de mula.

Cada trovão era uma morte a cavalo no vento
Cada trovão um homem a sorrir diante
Da morte - e que diga o destino o que quiser.

Súbito o momento desviou-se do alvo e ganhou coragem
Atirou cacos de vidro em plena face do sol
Lunetas, telémetros, morteiros, ficaram de cera!

Como o vento se rasga com a facilidade da tela!
Como as pedras se abrem com a facilidade de pulmões!
O capacete rolou do lado esquerdo...

Na terra apenas um momento estremeceram as raízes
Depois desfez-se o fumo e o dia foi timidamente
Enganar o nevoeiro com ardis

Mas a noite ergueu-se como víbora pisada
Apenas se deteve um pouco nos dentes a morte -
E depois irrompeu até às suas unhas lívidas.

IV

Jaz agora sobre o manto chamuscado
Com um vento parado nos cabelos calmos
Com um raminho de esquecimento no ouvido esquerdo
Parece um jardim que os pássaros abandonaram
Parece uma canção que amordaçaram no escuro
Parece um relógio de anjo que parou
Mal as pestanas disseram "olá, gente"
E o espanto se petrificou...

Jaz sobre o manto chamuscado.
Séculos negros ali em volta
Uivam com esqueletos de cães o terrível silêncio
E as horas que se mudaram em pombas de pedra
Escutam atentas;
Mas o riso ardeu, mas a terra ensurdeceu,
Mas ninguém ouviu o mais derradeiro grito
O mundo todo se esvaziou com o derradeiro grito.

Sob os cinco cedros
E sem outros círios
Jaz sobre o chamuscado manto;
Vazio o capacete, lamacento o sangue,
No flanco o braço meio acabado
E entre as pálpebras -
Pequeno pequeno poço, marca do destino
Pequeno pequeno poço negro-rubro
Poço onde esfria a memória!

Ah não fiteis não fiteis o ponto -
O ponto por onde se foi a vida. Não digais como
Não digais como subiu muito alto o fumo do sonho
Foi assim então que um momento. Foi assim então
Assim então que um momento abandonou o outro,
E o sol eterno assim de súbito o mundo!

V
Sol não eras eterno?
Pássaro não eras o momento de alegria que não descansa?
Claridade não eras a ousadia da nuvem?
E tu jardim teatro das flores
E tu raiz flauta encrespada da magnólia!

Assim quando estremece a árvore na chuva
E o corpo vazio enegrece com o destino
E um louco se fustiga com a neve
E os dois olhos vão para chorar -
Porquê, pergunta a águia, onde está esse bravo?
E todas as águias perguntam onde estará o bravo!
Porquê, pergunta suspirando a mãe, onde está o meu filho?
E todas as mães perguntam onde estará o rapaz!
Porquê, pergunta o companheiro, onde está o meu irmão?
E todos os companheiros perguntam onde estará o benjamim!
Agarram a neve, e a febre queima
Agarram a mão, e está de gelo,
Vão p'ra comer pão, e o pão escorre sangue
Fitam o céu ao longe, e o céu tinge-se de negro
Porquê porquê porquê porque é que não aquece a morte
Porquê um pão tão sacrílego
Porquê este céu assim, ali onde habitava o sol!


- Odysseas Elytis
(tradução de Manuel Resende)

retirado daqui

terça-feira, agosto 23, 2016


Quero estar só como um enigma (Rafael Cadenas), a voz roubada, sombras querendo ser lidas, dispostas como letras, chego a ter sonhos nascidos de puras especulações verbais, visões cegas formando-se na obscuridade, rastos que saem e voltam ao ângulo mais chorado deste quarto, uns papéis, a voz a lápis baixo bem solta e, quebrado outro reflexo, procuro um espelho que se sirva de um pouco de realidade mas não a dos outros, mais empenhado, se abra ao reino dos encantadores da neblina, dias luzindo desterrados, alguma hipótese que nos tenha de pé, a meio de uma rua, com tantas lições na pele, historiadores de épocas como esta, abolidas, paisagens frias, fossos, a terra escondida e o veneno dos dias que passam e se desfazem de todo o sentido, rimas de ecos delapidados, ter a coragem de dar a vida a uma língua deserta, neste ofício suicida, semanas para balançar perfeitamente um verso, que talvez só possa ser lido décadas mais tarde, por dois ou três aflitos, no mesmo passo do mesmo caminho, abro a carne e do futuro deixam-me cair um punhado de terra no íntimo, como arqueólogos do nosso próprio tempo, é no sangue que se fazem as nossas descobertas, o fascínio diante do vaso quebrado há minutos, e, deitada, espreitando a ruína de todo o mundo, uma flor deixando-se morrer, isto: o decurso de uma vida numa frase, gerações respirando na mesma linha, esse artefacto levemente vibrando, melodia de mármore, uma mão cheia de nada lançando uma sombra à caça através dos séculos que virão, não outro vestígio da mesopotâmia, mas o instante a debater-se para não ser consumido pelo seguinte, e com ele eras perdidas, gestos soterrados, as mais espantosas e dilacerantes frases em línguas entretanto esquecidas, desse espelho um reflexo atravessando-me, enchendo o quarto, desdobrando-o num campo ao longe batido por relâmpagos, a lua desenterrando o seu brilho, com um ar vago polindo um capacete, a cabeça cortada nos teus joelhos e um arcaico enigma decifrado a dois.

quinta-feira, agosto 18, 2016

Emergência


Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

- Mario Quintana

quarta-feira, agosto 17, 2016

Post do António Gregório


Nelson Rodrigues batendo mais na tecla da entrada anterior:  

      Mas dizia eu que devo muito aos inimigos e muito pouco, ou quase nada, aos admiradores. Os meus admiradores quase me perderam. Quando escrevi Álbum de família, Manuel Bandeira declarou, em entrevista a O Globo, entre outras coisas, que eu era, “de longe, o maior poeta dramático que já apareceu em nossa literatura”. É, como se vê, um elogio de ardente seriedade. E quem o assina é um dos maiores poetas da língua.
      Mas não sei se, hoje, Manuel Bandeira diria o mesmo. Há anos e anos que deixei de merecer o seu louvor. E é maravilhoso que assim seja. Os admiradores, inclusive o poeta, quase provocaram a minha morte artística. Eis a amarga verdade: — durante algum tempo, eu só escrevia para o Bandeira, o Drummond, o Pompeu, o Santa Rosa, o Prudente, o Tristão, o Gilberto Freyre, o Schmidt. Não fazia uma linha sem pensar neles. Eu, a minha obra, o meu sofrimento, a minha visão do amor e da morte. Tudo, tudo passou para um plano secundário ou nulo. Só os admiradores existiam. Só me interessava o elogio; e o elogio era o tóxico, o vício muito doce e muito vil. Pouco a pouco, os que me admiravam se tornaram meus irresistíveis co-autores. E quando percebi o perigo, o aviltamento, comecei a destruir, com feroz humildade, todas as admirações do meu caminho.

      Hoje a toxicidade do elogio pode ser ainda mais feroz — quando já nem se trata de agradar a Manuel Bandeira mas ao frenesim partilhadeiro das redes sociais, que se péla pela frase de ensinamento moral descomplicado, e depois ao mercado dos não-leitores que se querem ter por leitores sem o desafio da leitura, como um adereço, veste-se e pronto, semelhantes aos apreciadores de música clássica que trocam de bom grado a estopada de uma sinfonia de quarenta minutos por um concerto agradável de peças curtas e canções regulares do Rodrigo Leão — não desfazendo; não é para ele o remoque —, porque, uma vez que também mete violinos e músicos trajados a rigor, conta para o mesmo campeonato, e para sofrimento chega o das horas úteis.
      Pessoalmente, encanita-me deveras perceber num texto um autor que julga saber o que eu quero ler — se nem eu sei! Caso esteja calculadamente a tentar agradar-me e o consiga sem que eu o perceba (é uma redundância: para o conseguir eu não posso perceber), saímos do território da fraude e vamos adiantados no do jogo da literatura e está tudo bem. Mas é uma estratégia arriscada.

terça-feira, agosto 16, 2016

Relógio


O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.

- Mario Quintana

segunda-feira, agosto 15, 2016

A paciência de um anjo


Tu podes derrotar-me, derrotar-me, derrotar-me, disse o demónio que estava perto da pia de água benta, mas não me podes destruir. Eu sou o anjo rebelde, mas sou um anjo, e o meu rosto que tantas vezes desfiguraste mantém pelo menos o traço de uma virtude: a paciência. Podes derrotar-me! Derrotar-me! O meu tempo há-de chegar.
- Max Jacob 
(tradução de Jorge Sousa Braga)

domingo, agosto 14, 2016

O meu piano azul


Tenho em casa um piano azul
mas não posso tocar.

Tem estado na cave no escuro,
desde que o mundo entrou em decomposição.

Quatro mãos tocam harmonias nas estrelas.
Canta no seu barco a Mulher na Lua.
Aqui apenas os ratos dançam.
As teclas estão danificadas.
Choro o azul que desapareceu.

Doces anjos, tenho comido
pão tão amargo. Abram por favor
a porta do céu. Para mim, agora –

Embora ainda não tenha morrido –
embora não seja permitido.

- Else Lasker-Schüler
(tradução de Jorge Sousa Braga)

Quero levar tempo nisto. Embrutecê-lo, escrito. Fazer paciência. Ao lado, um pouco de mundo. Uma mão de calmantes, e o virar do copo, a água que desce fria e certa, até um fundo qualquer. Tivesse memória e bastava alindar o ditado. Agridoçá-la, e roubar perfidamente desabafos de vida para matá-la num punhado de personagens, embasbacadas nalgum enredo meio sujo e meio luminoso. Há uma parte de nós que já só aguenta a vida dos outros, um desgosto sério com os próprios motivos. Importante aqui é escrever sem acordar nem desagradar o gato. Dar corda baixinho, para que se leia sem ter de aguentar acordado. A sorte é essa, do gosto que fica como levitando. Porque tarde ou cedo dói de morrer, umas frequências premonitórias, de hipocondríaco, ou já a frieza medida de umas frases curtas, de bata branca, num consultório. A vida dos outros é o que nos safa. Antes de alguma miséria somos meio desligados, sem luz, até que enfim um baque faz mais força desse lado que tínhamos surdo. Posso ficar horas no bolso só, passos em volta, descaminhos. A manhã é só para alguns. A outros descose, mistura-os sem aviso. Cão de quantos?, perdidos, homens ou restos, aventuras no fio, reticências e lixo. Dói-me também, os ossos perdem a sua ordem, já não combinam, a mão onde apoio a cabeça acaba por atravessá-la. Cada pensamento se enterra na memória, tudo parece relutante, os lugares que inventei, perdi-os um a um, tive mapas, ia meter lá gente também, mas se hoje já não acredito os pássaros não sabem e trazem-me notícias. Seja como for, o tempo não nos parece adequado, as circunstâncias não se abrem, não nos dizem puto, fabricantes de mel em excesso, de casa trazemos um ritmo como um fósforo aceso, ameaçado, a intimidade toda de que somos capazes. Juntos somos anteriores a nós próprios. O telefone toca vez por outra lá em casa e ficamos doentes, preferimos adivinhar a atender, levar até ao fim as nossas suposições. Da vida já só aproveitamos a sugestão, o arranque. Já todos sepultámos sombras nossas de tanto insistir nos mesmos sítios, engendrámos o perfume de uns quantos jardins, um corpo causa habituação nos seus lugares predilectos, vício mútuo, e a solidão abala aquilo que a envolve, a quietude das coisas torna-se expressiva, parte-se-lhes a casca sem que nada se altere, imitam a respiração, agravam-na, gravando repetidas vezes até corromper, de tão sujo, o filme do silêncio, cheio de ressonâncias, ecos mortos. A luz tosse ao passar por nós querendo fazer-se notada. Que tristeza senhora. Para que os nossos olhos sejam claros há os exílios. De alguns versos, longínquos reflexos que trazemos decorados, fizemos o nosso chão. Mas a manhã, de uma ponta à outra, só nos leva à vida dos outros, assim, mais nos valem os bairros vulneráveis, furtivos entre as janelas distraidamente abertas, corpos de água e sabão em cantorias, os pequenos preparos, limão, salsa e cebolinho, dentes de alho, e este abandono de Agosto cai-nos bem, a cidade semivazia, o calor zonzo indo por ruas desertas, quase selvagens. Se fechas os olhos podes imaginar quantas catástrofes, cada uma mais doce que a anterior. Um idioma ardente enfim sobre a desgraça deste tempo.

Cadernos do Subterrâneo LXXX


quinta-feira, agosto 11, 2016

Uma espécie de canção


Que a cobra espere sob
a sua erva daninha
e que a escrita
se faça de palavras, lentas e rápidas, acutilantes
no golpe, serenas na espera,
insones.

— pela metáfora reconciliar
as pessoas e as pedras.
Compor. (Ideia nenhuma
senão nas coisas) Inventar!
Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.

- William Carlos Williams 
(tradução de Vasco Gato)

quinta-feira, agosto 04, 2016




Onde o vento se levanta
reconheço o alfabeto dos passos,
palavras errantes, um rasto herdado
entre a luz de outras demoras, forças
de antigamente, avanços técnicos
ao lado dos líricos, máquinas a vapor
a dobrar os caminho.

Coberta da sujidade dos pássaros,
hoje a velha carruagem agoniza à sombra,
moldura quebrada de outro século
que deixámos para correr ao ouro,
meter sela ao espanto,
montar um transtorno e investir
contra um vento que nos desfizesse,
me lançasse para lá da minha pele,
o que se é fora de si mesmo.
Entre os outros, o frio que se faz.

Esta é uma arte de deixar espaços,
em cada ferida um coração de aranha
construções sensíveis, canais
para o instinto caçador do próprio sangue:
labirinto e armadilha.
A casa cheia de indomáveis, de amorosas
coincidências tristes ou alegres
,
uma música diluída pelas eras.

A noite treme fundo
nos seus sonâmbulos afazeres,
persegue sombras de estrelas
há muito sumidas, abrindo
os contornos de quem somos
no limite da nossa obscuridade.

Do trono espinhoso destas horas
elevei o meu silêncio até dele
se ouvirem campos de trigo
num rés-do-chão em campolide,
o vento ferido cortando caminho,
um zumbido que tenha virado navios
e o mar depois calmo exibindo
cicatrizes antigas. As mãos no tanque,
o queixo na pedra e um suspiro
conduzindo as folhas, como cadáveres
flutuando de sorriso na cara.
Tudo contido, tudo transborda.

Beberei das próprias palavras
dolorosamente cercado,
um universo à parte, outras vistas.
No mais, passar ao largo,
perdido numa cadeira de balanço
com as mãos cerradas no colo,
contando os dias,
até que olhar seja desmoronar-se.


quarta-feira, agosto 03, 2016


Começo a arder de outra maneira, dou o outro lado, levado até um canto da mesma idade, mexendo os lábios, sem som, atravesso a história que nos juntou. Preferia a isto um desgosto amoroso daqueles calamitosos, tudo partido, chinfrim, depois meses deitado até destruir a cama, garrafas na banheira, a chave com a cabeça guilhotinada na fechadura, eu ficando só com o pescoço e o porta-chaves ganho numa feira de província. A carta a meio durante anos sempre no bolso, em cada café reescrita, aprimorada. A memória como um pássaro autopsiado por formigas. O meu nome, que tanta razão te deu sempre que, por falta de assunto ou destino, atirávamos o pau um ao outro e acabávamos a discutir, este nome que deixaste, oiço-o agora como uma alcunha dolorosa em que insiste uma gente que nem bem existe. A luz parece percorrer uma distância surda e segurar com hesitação o que vejo, uma lepra tranquila mordisca as bordas das coisas, rasgadas as fotografias, as mãos parecem perdidas no tempo, sujas do pó de asas moídas. Venho ouvindo uma mosca no lugar da consciência. Pousa-me em cima, aplica o verniz azul nas unhas, cruza e descruza as patas curtas, nervosas, calçando grãos de açúcar a imitar sapatinhos de cristal. Devo ser o monte de merda que a alegra. Preferia uma aranha que me puxasse pelos cabelos. Mas nem ela nem eles. Aos trinta e um, neste país e no estado actual da economia, vejo os raros espíritos acesos da minha geração entalados, treslidos junto com o resto, mal saindo das gavetas, tantos arrependidos, jurando para nunca mais, e o barulho todo cá fora, tudo a distribuir-se nos panfletos da peste cor-de-rosa, ardinas de uma vontade de lixo, em vez de um quilo de carne, um quilo em obras reunidas, a alma toda mal copiada, cábula para enganar os pares com insossas profundezas gastas à pressa em vaidades. Nem erros próprios nem um cigarro deixado a meio para apanhar um só verso que justifique os dias todos à míngua, anos de vigilância ao pendular e vazio movimento desta estação.

terça-feira, agosto 02, 2016


Olhando de fora, uma luz acende e apaga no prédio, como se tirassem fotocópias naquele quarto trepado pelas escadas de incêndio nas traseiras, a roupa fremindo na corda, fodem, ela fez um desconto mas prefere o escuro, ele precisa das linhas e não se importa de vê-las indo e voltando nesse contraste soberbo, não se importa com esta espécie de flash, a luz intermitente, beliscando-se, como se confirmasse que estão mesmo nisto, uma respiração funda entrando e saindo daquela carne negra, impressionante nos reflexos que lança, o contorno lambido pela passagem de uma faca na madeira, uma embarcação atirada às ondas, resfolega, sua e cheira, fede doce, uma força notável, de centauro, os dedos metem-se-lhe na boca, como se acompanhasse o seu giro na roda de oleiro, num momento dando-se a montar e no outro atropelando, os cascos marcando a ferro a pele, magoa, faz sublinhados no texto algo vago do corpo dele, a incerta forma aprende na base da porrada a lição de anatomia, nódoas que darão vestígios de que ali se banquetearam barbaramente, a fome pela fome, passar na rua como à beira da cama, a noite e as estrelas quase despencando, lendo o cardápio cá em baixo, o calor das coisas, bocas, ordens, rezas a dois, a lata batendo e rolando todo o Verão, fodem o que sabem, quanto podem, e, do que chega à rua desavergonhada, não há escolha, fazem-no aflitivamente, relampejando, de joelhos o céu buscando os óculos, a dentadura, lavando o chão, as distâncias sufocando-se, no corpo a corpo, uma intensa paisagem arfando, ouve-se, faz tremer quem passa.

segunda-feira, agosto 01, 2016


A colher no lixo ajuda a mexer, a impedir as letras de formarem uma frase, até que suba à linha um anjo de peluche encardido, pior que sujo, marcado, sobrevivente de uma casa onde o fogo entrou bêbado, abrindo à força a noite, intrometendo-lhe um dia abrupto, foi a correr ao quarto da criança e depois fez alguém, dormindo ao fundo do corredor, abrir tanto os olhos que neles se visse o reflexo do inferno, cabia-lhe de há uns meses até ali a vida nos braços, mordeu a língua até ao fim, até ficar negra, um peso morto na boca, e logo correu a atirar-se ao rio de si própria — as mulheres continuam a explicar o infinito através da dor —, e o anjo, antes um adereço do sono, tornou-se histérico do lado da ironia, por todos estarem distraídos na célebre hierarquia, quem se ela gritasse..., e depois do grito inteiro percorrido quem restaria?, do mais alto ao mais baixo de si a voz revelada inútil, nada mais patético do que um deus ausente, ali, no anjo, antes um brinquedo de cabeceira, um consolo de suaves tons, e agora o incessante desabar do céu — medo típico das ancestrais e mais inspiradas culturas —, ficam para testemunhas as asas de plástico, uma delas partida, afiando um corte imenso, paciente, os passos dados de um jeito cirúrgico, recortando no lixo as estórias, recupera um álbum de fotografias alheias, a emoção torna-se um circo itinerante, um homem desinventa-se a partir do que pode imaginar, cresce sozinho com a noção que faz das coisas, acordeão trocando o ar dos baldios por uma música de raivosa alegria, festa de todos os tristes, a um homem para quem a infância e o passado são só os mesmos lugares mais vasculhados, cansados, não lhe vem o pássaro cuja carne faz loucos bicar venenosamente, não é acometido pela tal saudade de um paraíso perdido, o que há em si de um passo a outro diz apenas que é cada vez mais raro dar por si neste mundo, não tem muito a quem falar, e partilha com os poucos uma desesperança gémea que apenas lhes confirma como o real é mesmo isso, real, sem saída, uma redundância espantosa e terrível, então passa a habitar-se recuadamente, atrás das várias hipóteses renegadas de si, redige a sua composição como se partisse o mesmo relógio de sempre, dispusesse o avesso do tempo, parte o pão insurrecto dos dias, vive dos pequenos trabalhos, serve a comunidade e as suas tontas necessidades, com um cinto de ferramentas de pouca eficácia faz concertos, navega entre infiltrações, nada serve, criam-se os brutos e ficam com tudo, linhas de sucessão que custa milhares de vidas (hoje milhões) o esforço de romper, só para logo outra vir impor-se no seu lugar, o frio que faz de um limite a outro nesta terra, um homem é regressado de si mesmo, é salvo criando-se de novo à imagem de coisa nenhuma, o espaço não dá para mais do que andar, separar o lixo, assistir às coisas como se não existisse, como se não tivesse uma presença real, estar e não estar, fazer vida com um tempo destes é de uma banalidade atroz, à pergunta do príncipe só pode responder-se hoje: não ser, com a máxima clareza, contra tudo isto: não ser, não ser.


O silêncio está sempre aqui e em toda a parte;
ouvimo-lo por vezes com maior nitidez:
paira uma bruma pelos prados, a porta do celeiro está aberta,
um tordo-pisco canta ao longe e uma
borboleta branca não pára de esvoaçar
em torno do ramo de um ulmeiro que
balança ao de leve com o poente em fundo.
O crepúsculo despoja tudo de rosto ou caligrafia,
sobra apenas a diferença entre luz e escuro —
não há senão a própria noite estival
e um velho relógio de bolso começa de repente
a fazer tiquetaque sobre a secretária,
muito alto.

- Jaan Kaplinski (versão de Vasco Gato)