sexta-feira, junho 23, 2017


Uma estranha música divide as folhas por tons, sobre a água as cinzas parecem flores, vê-se uns restos de jardim, falíveis lembranças, coisas queimadas, é fácil imaginar quem passou, ainda se sente a pressa, um tumulto, debruçado sobre o que resta está um corpo atravessado por uma lança, o nevoeiro assobia e ordena entre o porto da memória os navios, devíamos estar perdidos e contudo nada nos é propriamente estranho, as estrelas um pouco deslocadas, mas as distâncias são as mesmas, dias inteiros sem abrir os olhos, a ouvir as canções do poço sem água, seguir essas uvas frescas desde a antiguidade pintando um trilho, a beleza sabe alguma coisa mas não diz, tem um pássaro adormecido na língua, meu rosto de quinze anos, minha sombra que me ajudava a trepar, ver mais longe que os mapas, vinha com olhos de alguns meses, era comum cruzarmo-nos com o tipo de homens que traziam algum amor desenterrado a apodrecer-lhes nos braços, elas sentadas mexendo com a colher numa xícara, copos com água de vários dias, bebendo flutuando como Ofélias envelhecidas, entre os mais novos eu não me fazia notar, mas impressionava-me a adolescência, um miúdo de cabelos negros junto a uma cama desfeita, de que puxou um ramo, tirou as folhas e afiava uma flecha, a raridade dos amantes tornara-os seres de um talento perigoso e comovente, quanto a mim, e com a excepção de um ou outro arredondamento, sabia que as coisas sucederiam igualmente quer eu vivesse quer morresse. Há um buraco neste mundo, e eu tenho a sua exacta dimensão. Se morro agora, o buraco irá apenas fechar-se, como uma ferida cicatrizando (Aleksander Hemon). Andar era tudo. Andar, andar. Tinha tirado o som das coisas à volta, para que pudesse apenas ver de fora, uma locomotiva arrastada e morta numa floresta, as malas abertas dos passageiros, a roupa a vestir espantalhos rasteiros, tinha esperado pelo horror, mas não havia nada de apocalíptico, só a calma dos lugares abandonados, talvez até a paz, a sua reticente harmonia, podia compará-la com o mal estar de antes, dali mesmo, se esperasse a noite, podia ver o lixo das luzes da cidade, incapazes de formar qualquer constelação, pôr o dedo na boca de algum mito, depois ficou claro como um mundo novo não é mais que uma compreensão nova das coisas, fora-lhe restituída uma linguagem gestual bastante primitiva, era difícil ir muito mais longe, ser mais concreto, soletrar a alma e outras ordinarices do género, e estava bem assim, tudo frágil, criado à luz de fósforos, apenas recordava os antigos sentimentos, tão fortes, tão desesperados, um ódio sem saída, em que ninguém era outra coisa senão um reflexo do mesmo mal. If we are to understand our time, notava Williams, we must find the key to it, not in eighteenth or nineteenth centuries, but in earlier, wilder and darker epochs... Era o lado ínfimo o que faltava, o discernimento capaz de distinções, a própria morte não nos fazia sentido, parecia pouco real, como se para nós estendesse um braço alguém de dentro de um sonho, devíamos estar perdidos, mas isso afinal só teria facilitado as coisas, um buraco, senti-o no pé, tinha uma cor e textura estranhas, um fruto que não batia certo com as árvores em volta, mas caíra não há muito, eu tinha o golpe, a mancha, as formigas ainda só estavam a formar o perímetro, um cadáver minúsculo, apetecível, tirei um pedaço, provei, e era isto, pareceu-me, se a morte pudesse ter um sabor.
 

domingo, junho 18, 2017

Al Berto, 20 anos depois



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sexta-feira, junho 16, 2017


De dias selvagens que inspiração desenterraste?, cheirando coisas novas, outros nomes com que o jardim do vício te ameace o talento, tiras o corpo da sombra desta melodia que se aproveitou de todos os ventos que chegavam atrás de ti, tinham-se acabado as viagens, mal sentias a tua própria presença, era difícil regressarmos ao mesmo tempo, tantos desembarcaste dessa intimidade desregrada. E sentias a cabeça na linha de astros decaídos, horas brutas, irremediáveis. O que faz instinto acordado pelo escuro?, reúne as armas, tudo o que corte, forma assembleias de sussurros que o roçam, um fio puxando o braço da imaginação, não contava certamente era que chegássemos a tanto. Do interior de uma densa névoa ia e voltava trazendo aos pedaços um outro corpo, talvez sonhado, metamorfose a meio, num triste espalhafato. Podem morrer e renascer os sóis, tanto se nos dá desde que fique um espaço entre eles, o suficiente para o corte das deambulações nocturnas, quando a cidade só tem ruas a subir, tão veloz e atraente no modo como reposiciona os seus níveis, as espécies do sonho que lhe seguram a porta entre as eras, aguentam o velho prestígio e mais nos compelem: outra geração, a que escapa a este entreacto inútil, de palavras perdedoras, visões sem fundo, agora que não passa um tigre, mas apenas a sua descrição. É bem a cara de um século aterrado por não ter aprendido nada com o que passou antes, prestado atenção aos sinais, sendo certo que o que se seguirá o deixará surdo, mudo e o resto. Infame como és, pouco te interessa o resultado desde que lhe oiças os gritos. Com as luzes apagadas, registas, devoras o puro ritmo, a beleza vil das sequências, e só te anima a ideia de tornar o impossível necessário, com estas mãos, à sua sombra. E inventas senhas, entras nos prédios, trocas as duas palavras, um sobrescrito debaixo da porta. Voltas a descer, ao espelho do elevador dizes o que se diria num encontro fatal. Ter alguns inimigos para situações destas, nunca andar sozinho, sempre numa discussão, uma parte de si a bater noutra, sempre a bulir alguma guerra civil. Trazer uma faca só para se controlar, exigir-lhe frieza, respirar tão fundo que se gele os demais. No mais, até somos seres bastante pacíficos, não arrastamos ninguém, as nossas luas estão ocultas, nunca mais nos transformámos. Estamos a perder os dentes como antes o cabelo. Por via das dúvidas o instinto ainda nos segue, ou vigia pelo menos, estamos frágeis ao ponto de o amarelo das flores nos servir de transfusão. Nada mais forte, já não as cores narcóticas, apenas o mijo, o seu simples vigor rodando na louça branca, e que sejam palavras tudo o mais. Quanto a mim, e mesmo se escrevo, tenho de respirar noutra língua, encho bem os pulmões, para não sufocar nesta, embora a morte não me pareça mal, com certas precauções, tratando de tudo para que não lhes seja possível, no fim, virem fechar-me os olhos.

quinta-feira, junho 15, 2017

Os 20 anos da morte de Al Berto



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quarta-feira, junho 14, 2017

João Barrento sobre "Animais de Sangue Frio", de Elisabete Marques



Não quero falar das minhas impressões de leitura deste segundo livro de Elisabete Marques sem antes lançar uma ponte que o liga – ou talvez melhor, o separa – do primeiro, publicado em 2014 com o título Cisco. Porque este novo livro representa, no meu entender (e no meu entendimento da poesia em geral), um enorme passo em frente. Que passo? Aquele que leva de um minimalismo nominalista em que um Eu se reflecte e se confunde com os «ínfimos acontecimentos» da casa ou de territórios próximos, a uma escrita em que o eu deliberadamente se distancia, se mascara, quase se apaga, para deixar falar e mostrar-se uma série de «bichos» que de algum modo configuram um catálogo de tipos – não necessariamente zoológico – com perfis próprios, habitantes de um mundo mais vasto e apresentado a partir de um olhar claramente taxonómico, ordenador (isto é visível na própria estrutura deste novo livro, a que ainda me referirei). 
Lembro então rapidamente o que li em Cisco, e de que dei conta apenas ad usum privatissimum. Em 2014 eu encontrava nesse livro uma poesia descritiva, de expressão subjectiva e imagética, vivendo da frase nominal que constata e regista os acontecimentos mínimos – ciscos, grãos de existência –, para depois tentar descobrir-lhes o reverso com uma metáfora ou uma imagem mais ou menos ousada, inesperada, às vezes précieuse. E numa linguagem em que o único texto crítico por que dei na altura encontrava (cito), «um estrangulamento deliberado da sintaxe», um «esfacelamento impiedoso da palavra», «pontuação adversa à norma», «opções lexicais menos vulgares, quando não abertamente disruptivas...». Tratando-se de poesia, não há nisto, evidentemente, qualquer marca negativa. Mas eu pensei nessa altura, e continuo a pensar, que a poesia hoje, neste mundinho acomodado e cabisbaixo, ou então inconscientemente eufórico, precisava de ir mais além, respirar mais fundo, ampliar os «pequenos charcos» dos dias à dimensão de um pequeno terramoto. Sem denúncia explícita e fácil, sem renunciar a uma dimensão estética de rigor, mas configurando atmosferas de maior fôlego. Não iria tão longe como o Fernando Guerreiro num dos poemas do seu livro Gótico («A negação do poema»), mas sirvo-me dele para assinalar já a diferença que marca este segundo livro da Elisabete em relação ao primeiro. Lembro o início desse poema do Fernando – que logo a seguir, curiosamente, dá passagem para o domínio zoológico deste Animais de Sangue Frio: «A tentação descritiva surge quando a poesia falha de vez / o seu princípio. Isto é, quando deixa de ser uma palavra / arrancada à morte para se tornar uma promessa muito / antes de tempo cumprida. [...] Então, / para contrariar o sentido singelo do destino, podemos / recorrer a algumas noções correntes de zoologia.» (p. 66) Agora, neste segundo livro de Elisabete Marques, as palavras são arrancadas a outros fundos de experiência. Como diria ainda outro poema do mesmo livro do Fernando: «Findo o tempo frutuoso da poesia pessoal / em literatura é sem nostalgia que rebuscamos / o fundo de armários onde palavras sem filamentos / se apagam uma a uma...» (p. 12). 
Lemos este novo livro da Elisabete e percebemos que ele deixou para trás a «poesia pessoal» – quer dizer, a pessoa poética a que se chama sujeito da escrita situou-se noutro plano, sem deixar de ser ela própria – para ir rebuscar no fundo de outros armários palavras arrancadas ao próprio corpo. Mas não nos iludamos: este é um livro construído, um «projecto» poético rigorosamente estruturado. O poeta Gottfried Benn («um pessoano tardio», como lhe chamou Vasco Graça Moura), escreveu um dia (e  poderia ter sido outro moderno qualquer): «o poema não nasce, o poema faz-se». Também com todo um livro isso pode acontecer. Acontece com este, que pode ser lido na totalidade da sua construção, na sua linguagem e no olhar que o alimenta e conduz, à luz de uma figura muito moderna (desde Baudelaire), que é a da alegoria. Como sobre ela escreve W. Benjamin, também aqui «cada personagem, cada coisa, cada relação pode significar qualquer outra coisa». De facto, neste livro, a linguagem, não já inexpressivamente descritiva, mas imageticamente figurativa – configurando perfis comportamentais, mentais, afectivos dos nove tipos de «animais de sangue frio» (animais que somos todos nós? A epígrafe de Valéry – «la vipère que je  vêtis» – parece confirmá-lo!) –, essa linguagem destes novos poemas serve-se preferencialmente da imagem para  encenar  uma  leitura  alegórica  do  mundo,  para oferecer um catálogo poético subtil da fauna que povoa os territórios actuais desse grande mundo – ou do nosso pequeno bairro. Na alegoria não há intenções totalizantes (moralistas ou outras) nem estratégias de empatia (sentimentais): pelo contrário, «privilegia-se a coisa [aqui: o animal] face à pessoa e o fragmentário frente à totalidade» (WB). A alegoria serve-se do distanciamento e do estranhamento, nela cada imagem do poema (do animal sob observação) é como um emblema e, como diz ainda Benjamin, «à volta de um centro figural (...) agrupa-se todo o conjunto dos emblemas». Pode ser este o processo de escrita de um livro de poesia como este, um bestiário psicossocial da fauna desencantada ou convencida, nada sentimental, antes de sangue frio, que anda    por aí e vai sendo dissecada com o bisturi  (de  ponta  quente,  sem  conceptualidade, mas com uma certa ironia de fundo)  de  quem  andou,  com  tempo, a analisar cobaias de laboratório ou a observar casos particulares em trabalho de campo. E o resultado é notável, pela imagética actuante e original e por uma capacidade de figuração (des-figuração? re-figuração?)  e  distanciamento, eloquentes e loquazes: os poemas falam, ao que me parece, por toda uma enciclopédia do género humano. O conjunto pode ler-se também como uma dramatização, com múltiplos actores – exactamente nove, não personagens individualizadas, mas figuras tipificadas – representando a sua farsa? comédia? tragédia sem catarse possível?, neste teatro rasteiro, ou «apocalipse alegre», em que vamos representando os nossos papéis. Mesmo quando se diz «eu» está-se a desempenhar um papel (que mais podemos fazer hoje?), ou a assumir a descrição de uma espécie de «quadro de género». São excelentes Rollengedichte, como dizem os alemães, precisamente poemas em que nos desdobramos e alguém assume um papel e fala por nós. Aqui, numa linguagem exacta e ainda rara, quase clássica... 
Assim, seria possível extrair de cada um dos núcleos de três poemas postos na boca de cada um dos nove tipos animais-humanos uma ou duas frases em que o olhar do/da alegorista capta e propõe traços essenciais de cada um. Por exemplo: 
- Os famintos diriam: «Do mundo cobiçamos tudo» e «tudo apanhamos, até os séculos...»;
- Os lentos: «Como quem pudesse morrer sem dar por nada...»;
- Os fulgurosos: «desejam a façanha, a pirueta, / o salto mortal»;
- Os ocultos: «Faço da sobriedade térrea aconchego da minha dúvida...»;
- Os frenéticos: «Não sei que furor me assalta ao meio-dia», de «ressaca, zumbido, estouro, festa»;
- Os prudentes: «cauteloso no elemento, avanças» e «deploras a solidão que inventaste»;
- Os sinistros: «o bicho mudo e opaco é aquele que morde melhor»;
- Os inchados: «Como um balão, redondo de nada ou de ar...»;
- Os novos: «Nós, frequentemente nós, continuamente juvenis», e «gosto da conversa fiada...» 
Naturalmente que uma frase não faz um poema (muito menos um poema como os deste livro). É preciso atentar, nas construções poéticas de Animais de Sangue Frio, na profusão do pormenor imagético servido pelo rigor e a contenção de uma linguagem que vive da escolha da palavra justa e ainda e sempre de um pendor descritivista, mas agora da imagem que se dá a ver, ela mesma, para traçar um perfil, sem a metáfora embelezadora ou transfiguradora (não há aqui transfiguração, apenas figuração). É a pujança controlada, burilada, das imagens que desenham, no final de cada tríptico, o perfil múltiplo de cada tipo deste bestiário muito particular. Mesmo os preciosismos de linguagem, agora muito mais raros, são marcas que acontecem no momento exacto, caem no lugar certo e enobrecem um discurso que nunca é descuidado nem casual, mas sempre deliberadamente «este acerto de linguagem e ruídos» (p. 72). 
Por outro lado, por estes poemas que nos colocam diante dos olhos tipos humanos (não os leio, como ficou claro, como retratos de animais) passam todas as afecções da alma e do corpo, como que decalcadas do Livro 3 da Ética de Spinoza, sem proposições e escólios, mas moldadas com o barro imagético da poesia. Como diz um dos poemas: «Nessa experiência do susto e do espanto, / tecíamos sem saber as imagens.» E essa tecitura, diria para concluir, vai sendo discreta e pujantemente construída por uma Penélope escondida que nela vai inserindo, tentando compreendê-los more poetico, os padrões que hoje definem a fauna do mundo – a «humanidade», se quisermos, o que quer que isso seja. Adorno escreveu num célebre ensaio sobre «Poesia e sociedade» que a palavra do poema tem de ter um sentido para além de si mesma: «Só entende o que um poema diz aquele que ouve na sua solidão a voz da humanidade.» Eu ouço nestes poemas da Elisabete Marques que parecem pintar tipos animais (será?) essa voz da humanidade, nos seus muitos rostos. Ou também os ruídos anódinos, sem ecos retumbantes, da fauna humana e urbana do meu bairro. A «Natureza» (animal ou outra), essa não está lá, apesar das aparências em contrário, a julgar pela matéria de que se fazem muitas vezes as imagens. A Natureza, assim como assim, nunca ninguém a viu – a não ser talvez, no seu idealismo imaculado, um poeta como Hölderlin. Mas esses eram outros tempos – também eles cheios de «animais de sangue frio», hélas. Lembremos uma página que parece ter sido escrita para hoje: «Desde sempre bárbaros, tornados sempre mais bárbaros pelo trabalho e a ciência, e até pela religião (...) O que vês são operários, mas não seres humanos, pensadores, mas não seres humanos, padres, mas não seres humanos, senhores e servos, jovens e gente instalada na vida, mas não seres humanos – não será isto um campo de batalha cheio de mãos e braços e toda a espécie de membros destroçados, enquanto o sangue derramado se perde na areia?» (Hipérion II, ii). 
Este campo de batalha é ainda o cenário dos poemas dramáticos, ou do drama poético, dos Animais de Sangue Frio de Elisabete Marques.

Entrevista a Mariana Enríquez



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segunda-feira, junho 12, 2017





Dormiu comigo, e agora que um dedo
mexe o último gole no copo que lhe dei,
outro conta os golpes até dez.
Antes fosse puta, digo-lhe,
e te bastasse juntar algum dinheiro.
Os espelhos tentaram em vão
copiar-lhe a beleza e até eles estão ali
a criar mofo no seu vazio íntimo.

Nos fundos do pátio aquela árvore
silenciosa parece escurecer. O ar em volta
detém-se quietamente e envelhece.
Chamam-lhe gato.
Os pássaros não se aproximam.
Se o fazem, se enfim se escondem
entre os ramos, é para morrer.

A nós, quem nos diz que estamos vivos?
Corre as cortinas, muda a roupa da cama
para não atrair as moscas ao sonho,
depois talvez possamos adormecer
com a chuva a medir a altura das coisas.

Enquanto as sirenes dos barcos
não atravessam a neblina do amanhecer,
somos a tinta escavando o seu buraco,
suores nocturnos, comboios
na mesma linha. Não me acostumo a isto,
a vida, e nem à guerra de ir e vir
pelas mesmas ruas, caminhos que sabem
o que foi preciso para dar outro passo.

Agora que as águas sobem sozinhas,
que a soma de sóis e luas de uma linha
à seguinte nos dá
a própria velocidade da terra,
regressas aos lugares como o seu afogado.
Como aos vinte anos nas tuas páginas
mais violentas.

O tempo que passa e não passa,
a abelha sagrada que te esperou
num copo voltado. Um sítio chama
outro responde. Abandonas ao vento o verso,
e do mar, além do ritmo, tiras as espinhas
em que o resto ganha forma.
Meandros, restos, insignificâncias:
coisas que falam por nós.

Talvez o mar esteja perdido, e as ruas que
a ele caíram não nos levem a mais
lugar nenhum. Agora, tudo já faz parte
do vento. Hoje, procuramos saber
a quantas mortes dar
a mesma flor?
As pétalas caindo
de um aroma a outro. Aos dias,
a tudo isto, tivemos de emprestar
outro sentido, e por mais vago,
inventar um ritmo, seguir
de onde o coração parou.

Para quem dá esses passos, a vida
vira uma fábula... A fome aparece
só a meio da história, e a paixão depois,
mas logo que se apanhou com o rasto
do invisível não o largou mais.

Assim, adiantamo-nos ao efémero.
Onde a eternidade muda de pele,
reunimos os homens.
Projectos, planos, data de partida.
E na despedida: fogo. De cima abaixo,
fogo em tudo. Ininterruptamente fogo.


Camões: Um Prémio de Consolação



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Adenda: Paula Morão, ensaísta e académica portuguesa que integrou o júri do Prémio Camões e afirmou que a escolha de Manuel Alegre foi «unânime e rápida», fez parte da Comissão de Honra e da Comissão Política Nacional dele na sua candidatura às presidenciais em 2011.

A Bigger Splash (2015)



7/10


Experimenter (2015)



9/10


quarta-feira, junho 07, 2017

Feira do Livro, algumas impressões



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domingo, junho 04, 2017

Armando Silva Carvalho (1938-2017)



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sexta-feira, junho 02, 2017

Os literatos


Prostituem tudo
com o seu ânimo gasto em circunlóquios.
Explicam tudo. Monologam
como máquinas cheias de azeite.
Mancham tudo com a sua baba metafísica.

Eu gostava de os ver nos mares do sul
uma noite de vento a sério, com a cabeça
esvaziada pelo frio, cheirando
a solidão do mundo,
sem lua,
sem explicação possível,
fumando no terror do desamparo.

- Gonzalo Rojas
in Concerto, Antología poética (1935-2003) 

quinta-feira, junho 01, 2017

António José Forte, "Uma Faca nos Dentes", Antígona



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terça-feira, maio 30, 2017

Portugal na Feira do Livro de Madrid



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segunda-feira, maio 29, 2017

Virginia Woolf, "Momentos de Vida", Ponto de Fuga




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