quinta-feira, dezembro 01, 2016

Rui Manuel Amaral / «Notas sobre "Lançamento": Diana»


Em “Diana”, um dos poemas mais bonitos de “Lançamento”, Margarida Vale de Gato cita o que a grande poeta Marianne Moore dizia da poesia: “Eu cá também não gosto, há mais coisas além deste desconchavo.” Alguns versos depois: “Mais importa observar ou designar?” Portanto - isto sou eu agora a dizer -, é mais importante a vida ou a poesia? A realidade ou a imaginação? Os acontecimentos ou a memória que formamos a partir deles? Apetece colocar aspas em todas estas palavras como se fossem asas para levantarem voo. Porque não há apenas “vida” ou apenas “poesia”, as duas coisas são a mesma. A mesma coisa contraditória, inexplicável, bela e monstruosa. Não é possível escolher entre a vida e a poesia, nenhuma das duas é mais ou menos importante. Mais à frente ainda: “Portanto sirvo mal, sou outra, fora/ do baralho, turista aqui em tanto/ do que me dá prazer e algum trabalho.” E a razão de tudo isto, de toda esta impossibilidade, reside na mais prosaica das causas: a morte. Diante da morte, nada nos salva, tudo se torna insignificante. “Se insisto/ à minha pouca escala nisto eu/ é porque não desligo e toco e falho/ no material à vista, língua/ crua clara em bruto céu.” A poesia não salva, nada resolve, será sempre um falhanço, mas é também uma forma poderosa de enganar um pouco a morte.

***

Não se trata de uma qualquer espécie de fé, quer dizer, de acreditar que a poesia pode ajudar a dar um sentido ao mundo. Estamos condenados a não ir além do meio do caminho. Mas a imaginação e a poesia são o que nos resta, com elas somos capazes de dar nomes às coisas. Dar nomes às coisas é a nossa maneira de olhar no escuro, ver debaixo de água turva. É a nossa maneira de perceber a morte. 

- Rui Manuel Amaral


quarta-feira, novembro 30, 2016

"Heróides", de Ovídio, por Guilherme Geraldes




(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


terça-feira, novembro 29, 2016

Coragem, meus senhores

Incendiar a Tabacaria
Álvaro, Ricardo, Bernardo, Alberto, Fernando,
sentaram-te ali no Chiado, mãozinha ridícula pousada na mesa, nem o prazer de um cigarro, nem o copo de vinho, de aguardente ou de absinto. Nem poesia, nem chocolates. Só lojas, gente feia, turistas sem metafísica que vão sentar-se a teu lado, dar-te a mão e tirar fotografias como se tu pudesses algum dia ser uma imagem.
Sentaram-te ali, muito direito como tu nunca foste, porque tinhas sempre os ombros curvados como aqueles que não se podem enganar a si mesmos sobre a inutilidade de todos os gestos, sobre a impossibilidade de todos os sonhos, sobre o absurdo de todo o existir.
Puseram-te ali à mão de semear de turistas, consumistas, artistas de rua, logo tu que tinhas uma repugnância total por todos os que não percebiam à partida a sua derrota. Logo tu, que sabias ser irónico e mordaz, logo tu que não perdoavas o logro. Logo tu...

Ah Fernando o que eu gostava era de te ver levantar dali daquela cadeira de pedra e distribuir lambada e pontapés, numa violência que este tempo condena. E chocar as esplanadas ociosas que te contemplam sem te ver. Gostava era de te ver percorrer as livrarias, as editoras, vir aqui a esta casa museu onde te enterraram para dar emprego a uns quantos maus escritores, e queimar tudo isto. Queimar tudo. Queimar, como Virgílio queria fazer com a Eneida, porque percebeu, como tu, que nenhum homem, nem mesmo os poetas geniais, podem tocar o absoluto.
Nos quartos onde tu viveste miseravelmente erguem-se agora senhoras e senhores gordos que querem ser teus donos. E escrevem livros e fazem colóquios a ensinar-te. A ensinar-Te, calcula tu?
E vendem-se a bom preço uns bonecos esfíngicos do que se pretende teres sido tu: silhueta preta, oculinhos, chapéu. Vendem-te, Fernando. Vendem-te e vendem-te. Uns como conhecimento, outros como objecto “made in china”, para pôr no frigorífico, para beber leite, para compor a estante.
A pouco e pouco as tuas palavras desaparecem sob as palavras que outros querem que tu digas. Sobre a poesia que dizem que tu escreveste. A pouco e pouco desapareces sob a imagem que o Almada fez de ti e onde tu já não habitas. Alguma vez habitaste? Como poderias? Tu que fugiste de todas as imagens, de todas as utopias.
Continuam a querer-te casado com a tal da Ofelinha, ou maricas, mas sempre quotidiano e fútil. Qualquer coisa que sirva para nós sentirmos que te possuímos. Como se a poesia fosse coisa que se tivesse ou não tivesse.

Arranjaram-te tantos heterónimos quantos estudiosos e viúvas e viúvos. Cada um quer achar o seu e dar-te mais um nome. Porque achar um nome é achar uma prisão. Querem-te ali sempre igual à imagem que inventaram para ti. Mas que não é a tua. Tu não tens imagem.
Queria era ver-te aqui a desmentir-nos a todos, com as tuas roupas elegantes e velhas, a tua falta de dinheiro, o teu cansaço, o teu desespero. Queria ver-te aqui quando eras um homem ignorado pelas mulheres e bebias copos solitários e rias e não eras um mito. É provável que nos fôssemos logo todos embora. Eras um bocado excêntrico, solitário, exalavas derrota e as pessoas não gostam disso. As pessoas só gostam do sucesso. E até fizeram de ti um morto de sucesso.
Ao velho que serias hoje ninguém daria lugar no eléctrico. Terias uma reforma miserável de 500 euros e é provável que não encontrasses editora que olhasse duas vezes para os teus poemas. És demasiado simbólico, metafisico, confessional. És muito pouco coloquial. Terias que dar uma no Ezra (Pound) e outra no T.S. (Eliot). Terias que ser cool, ter hype, aparecer nas revistas, ir à televisão. E tu não tinhas jeito para isso.
Não ias em modas, nem saberias como ir. Eras frágil, tímido, tinhas vergonha de existir.
Esta gente que hoje te celebra não gostaria de ti. Porque esta gente, os tais da nossa pátria, a Língua Portuguesa, gostam é da Matilde Campilho e do  Valter Hugo Mãe, e de poesia com trocadilhos do Caralho.

O mundo, como sabes, está cheio de génios e os génios são sempre aqueles que estão perto do poder. Se vivesses hoje em Lisboa não terias dinheiro sequer para pagar um quarto, porque estão todos alugados aos turistas que vêm sentar-se e dar a mão flácida à tua estátua. Não terias certamente o Esteves na tabacaria e quase não terias jornais.
E estamos hoje aqui, Fernando António Nogueira Pessoa, para te matar mais uma vez. 
---
[Texto lido hoje na Casa Fernando Pessoa na apresentação da edição da Tabacaria da Guerra&Paz a quem agradeço a ousadia de me convidar quando o meio literário português se esforça para que eu desapareça.]


Joana Emídio Marques

Estou seguro de que vos hão-de ocorrer outros epítetos, a pouca imaginação acaba sempre por ficar de trolha, debaixo do lavatório das frases a recompor o desastre, a desmontar a ênfase das frases, pontuá-las ao contrário, retirar as luzes da árvore, recolher o papel de embrulho desfeito que era o que mais valor tinha cobrindo a desilusão dos presentes, e com o aspirador e a sua música monótona, os passinhos de dança entrevada, para cá e para cá, a líxivia, o balde e a esfregona, de modo a que de tudo se extraia um contrasenso, são os expedientes a que se dão, na simplória condição de animais entre-dentes, em vez da faca, a colherinha maldizente mexendo o chá, em tudo projectam o vício, essa falta de alcance, porque ser português, como sabemos, é há muito também isso, essa falta de horizonte que impede de ver no outro alguém mais, portanto, ser corajoso é já de algum modo ser estrangeiro a tudo o que vos é familiar, o que podem aceitar, compreender, os limites em que aceitam concordar, por isso resta-vos, espremida, essa pouca dose de imaginação para falcatruas, esse veneno receitado, para dar-vos licença da mesa na hora de encarar a realidade, um mecanismo de auto-preservação, usam-na para se distanciarem, salvarem a pequenina ilusão, e nisto, neste gesto deslumbrante na sua imprecaução não vêm outra coisa que um desmancho, algo tão contrário às noções que guardam do que é próprio, e já vos oiço dizer lá se pôs aquela maluca, acontece que (talvez) dentro de algumas décadas, se vos fosse contado não como um episódio havido ontem, há umas horas, mas um rumor ou um mito, uma velha história, assim poderiam mudar ligeiramente de posição, admirar o facto vagamente, mas nisto, com certeza, não terão para vós mesmos um exemplo claro, natural e acabado de coragem, um sem mas, preferirão porventura ver um sinal de destrambelhamento, até, e por vir de uma mulher (e tão poucas percebem a ingrata margem ao mesmo tempo fabulosa dessa diferença nalguns campos), verão aqui um sinal de histeria, um manifesto descabido, tresloucado, acto de vaidoso desespero, porque tudo entendem na moldura enfadonha do vosso próprio espelho, o reino infecto, não vêm nem admitem um peito tão entregue às balas, porque nada disto vos remete para vós próprios, não fala na vossa língua de subtilezas e infinitos degraus na escadaria da cautela, preferem justificar-se recusando a hipótese de haver noutro a simetria oposta e mais violenta ao vosso cálculo, ainda aqui há uns tempos vi uma parva aqui ao lado a pendurar como se numa faixa sobre o deserto da vida dela aquela citação do Kerouac... “The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars.” Esta gente que eu conheci tão de perto que ainda hoje deles tenho lembranças que me sacodem como pesadelos, com quem convivi sem ter a coragem dos pressentimentos, num aperto tedioso de dia sim dia sim, esta gente de quem nunca vi senão um tráfico de garfos pelas costas, a ferrugem do nojo a progredir alta noite em alta fraga, essa mesma gente que passadas décadas cita os malucos todos, um dia depois, no minuto em que é certo ser já tarde para fazer alguma coisa, largam as suas malas cheias de infinitas reservas, e vêm erguer hospícios com palitos e flores, fazer os seus clubes e associações em memória e homenagem aos mortos que se estivessem vivos continuariam a odiar, a boicotar e silenciar por todos os meios.

domingo, novembro 27, 2016


Pode sempre dizer muitas mais coisas, vestir e despir os armários todos, deixar as princesas e as aias arrepiadas, as fábulas reviradas de cima abaixo, e fazer do estio um amuo, mas quebrará sempre o espelho que a enfrente, e acabará por fazer como a aranha, que tem para estimação os mesmos insectos que depois come, enche a casa desses trófeus, decora-a de guloseimas pútridas, esquecendo que há outras arquitecturas claras e brilhantes que não a mortalha que tece na sua clausura de monja mortífera, sugiro-lhe voos que, para lá do arrastado compasso com que a morte ajeita os retratos nos seus corredores, saibam traduzir outras inquietações e ritos de passagem, o colibri, por exemplo, enche um segundo de oitenta batidas, poder-se-ia ver nisso uma expansão divina no jeito das asas sublinharem a interioridade do silêncio, movendo-se no compasso cardíaco dos detalhes, mas é claro que a desilusão usa de maus modos, esperava o rei à sua mão, senão, pelo menos, o padre, e contava que se ajoelhasse entre a fumarada dos escombros, mas com os sentidos dominados por essa estética do estômago, só escutava zumbidos, alertas, aquela teia na sua avara expectativa sentia tudo como se lhe mexessem nas intimidades, e porque assim, aos poucos, havia desfigurado este mundo e o outro, o além não tinha como lhe sinalizar, e foi como se a obrigassem a passar fome pela eternidade fora, uma que já nem na verdade tinha.

I heard a Fly buzz


Zumbiu a Varejeira – quando morri
Nesse sereno Quarto
Como sereno é o Ar
Entre os Capelos do Mar —

Enxutos os Cabos — dos Olhos em roda
E suspensos os Fôlegos
Para o último Ato — entrado
Entre os mais — o Rei no Quarto —

Doei minhas Lembranças — assinei
O que de mim se usa
Em Rubrica – e nisto meteu-se
A Varejeira intrusa

Zumbindo azul ­— incerta — instante
Entre eu e a Luz — a estremecer —
Cessando as Janelas então — e eu
Não pude ver para ver —

- Emily Dickinson
(tradução de Margarida Vale de Gato)

sexta-feira, novembro 25, 2016

“Porque o problema não é salvar Portugal, mas salvar-mo-nos de Portugal”

João Bénard da Costa sobre a amizade com Jorge de Sena
in “Retratos” do Público Magazine.



1. Conheci Jorge de Sena em 1958 quando o jornal Encontro publicou aquele Soneto que começa: “Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo/ mesmo no mal que consentis que eu faça”. Pio XII, Papa, tinha morrido e o soneto era dedicado à memória dele “que quis ouvir, moribundo, o ‘Allegretto’ da Sétima Sinfonia de Beethoven”. Era o primeiro Papa que morria na minha vida consciente e nessa altura — não sabendo o que soube depois — era mesmo o Pastor Angelicus. Comoveu-me que Jorge de Sena, não-católico — ou melhor, como um dia escreveu, um católico que não era nem podia ser católico, apostólico, romano, mas sim e apenas católico porque não era convictamente cristão — juntasse as lagunas dele às nossas e as juntasse nesses versos sublimes.

Essa razão obscura e a clara e luminosa beleza do soneto levaram-me a ler a obra poética anterior de Sena: “Perseguição”, “Coroa da Terra”, “Pedra Filosofal”, “As Evidências”. Li também “Fidelidade” que a Morais publicou em 1958 e que acaba com o “Como de Vós”. Entre 1958 e 1959, descobri o maior poeta português depois de Pessoa. Mais de trinta anos passados, continuo o pensar o mesmo. Embora saiba que esta afirmação continua a ser evidente e não era aceite por Sena que considerava Pessoa e Sá-Carneiro como o seu Sá de Miranda e o seu Bernardim.

“As Evidências” é o livro maior que se publicou em língua portuguesa neste segunda metade do século. Com a eventual excepção de “Metamorfoses”. E o mais belo soneto da nossa história é o soneto XXI de “As Evidências”, escrito a 16 de Abril de 1954. “Perdem-se as letras. Noite, meu amor,/ ó minha vida, eu nunca disse nada./ Por nós, por ti, por mim, falou a dor./ E a dor é evidente — libertada”.

2. Conheci Jorge de Sena em 1959, em casa do António Alçada, numa dessas reuniões clandestinas em que sonhámos fazer a Revolução de 11 de Março. Discutia-se acaloradamente se o primeiro “decreto” a sair era o que acabava com a Pide ou o que acabava com a Censura Jorge de Sena interrompeu com outra prioridade. O primeiro decreto devia era acabar com a Universidade de Coimbra Todos nos rimos muito, mas ele não estava a brincar. Por mim, demorei muitos anos até o perceber.

Também não estava a brincar quando, numa brincadeira de lugares futuros, pediu o de Embaixador em Londres. Para não ter que ficar cá. Muito mais tarde, disse: “Porque o problema não é salvar Portugal, mas salvar-mo-nos de Portugal”. Ele não se salvou.

3. Em Agosto de 1959, aos 39 anos, Jorge de Sena saiu de Portugal e foi viver para o Brasil. Em 1963, escrevi-lhe a convidá-lo a colaborar em “O Tempo e o Modo”.

Foi o começo de uma correspondência regularmente mantida ao longo de sete anos. Para além da espantosa colaboração de Jorge de Sena n'"O Tempo e o Modo”, devo-lhe várias dezenas de cartas (páginas enormes, 40 linhas, escritas a máquina) em que por tudo se interessava, por tudo perguntava. “É que nunca ninguém que me respeite apelou para mim em vão. Às vezes, nem os que não me respeitam”.

4. Em Outubro de 1965, aos 45 anos, Jorge de Sena deixou o Brasil e fixou-se em Madison, Wisconsin, USA.

Em 1968, voltou a Portugal, após uma ausência de cerca de nove anos. Quando ele chegou, estava eu na América e tinha incluído Wisconsin no meu itinerário, de propósito para o visitar.

Foi em Dezembro de 1968, havia neve e um frio bom. Jorge de Sena não estava mas estavam Mécia de Sena e os nove filhos que tinham tido. Pessoalmente, não conhecia ninguém, mas fui recebido como se se tratasse de alguém da família. Naquela casa cabia muita gente e jantares de 10 e 15 pessoas pareciam fazer parte do quotidiano. Foi lá que conheci Adolfo Casais Monteiro. Salvo erro, foi ele quem levou um dia, como presente, o “Dido e Eneias” de Purcell, na gravação EMI dos Mermaid de Geraint Jones, com a Flagstad e a Schwarzkopf. Desde essa noite, o “Remember” é, para mim, um sinal de união indissolúvel com eles. Revivi isso tudo há poucos anos — já depois da morte de Jorge de Sena — quando, pela primeira vez, vi a ópera, em Paris, com Jessye Norman no papel de Dido.

“Diz-me assim devagar coisa nenhuma/ o que à morte se diria, se ela ouvisse,/ ou se diria aos mortos se voltassem.”

5. Voltei no Natal de 68, ainda Jorge de Sena estava em Lisboa. Lembro-me de um almoço na Gôndola com o Vasco Pulido Valente. E lembro-me da sala cheia da Sociedade Nacional de Belas Artes para uma conferência que ele lá foi fazer. Já tinha saído o número especial de “O Tempo e o Modo” (Abril de 68) em que se dizia na cinta que seria disputado no futuro a peso de ouro. Foi durante a conferência que reparei que Jorge de Sena não se sentia à vontade, com aquela reviravolta de imagem face àquele ambiente delirantemente consagratório que eu concelebrara. Essa conferência, sobre Portugal na América ou Portugal no mundo, já não me lembro bem, parecia ser feita de propósito para contrariar os meus “clichés”.
Grande parte dos ouvintes eram jovens e —1968—contestatários. No final, reagiram com apupos e provocações ao jeito do tempo. A festa pareceu-me estragada e saí dali com uma enorme incomodidade. Jorge de Sena, não. Olhou-me a rir, nada zangado e perguntou-me se eu continuava a achar que as coisas tinham mudado. “Daqui a vinte anos” — disse-me ele — “vão ser iguais aos outros ou piores”. Era tão estúpido que não o tomei muito à letra. Não foi preciso esperar tanto tempo.

6. De longe em longe, voltei a vê-lo nos anos 70, quando cá vinha, antes e depois do 25 de Abril. Depois, a notícia da doença. Depois, mais nada.

Lembro-me de ter ouvido alguém contar que pouco antes de morrer perguntou à Mulher: “Ainda falta muito?”. Treze anos antes, em 1965, escreveu-me no dia da morte de Eliot. E dizia: “Você, que é jovem, não sabe ainda o que isto é de ter-se mais de quarenta anos e começar a ver sumirem-se aqueles que foram as luzes vivas da nossa juventude”. Quando Jorge de Sena morreu, eu tinha mais de quarenta anos. Tinha quase a idade que Jorge Sena tinha quando Eliot morreu. (E Deus) “Não nos aguarda — a mim, a ti, a quem amaste/ não nos aguarda, não. Por cada morte/ a que nos entregamos el’ se vê roubado,/ roído pelos ratos do demónio/ o homem natural que aceita a morte/ a natureza que de morte é feita”.

Para trás, ficaram seis instantâneos em forma de retrato. Mas como fazer de outra maneira? Quando preparei o tal número especial de 1968, pedi um retrato a Jorge de Sena. E ele respondeu-me (da América): “Fui tirá-lo de propósito, porque já estou farto dos velhos retratos de sempre. O pior é que, nesta América, ou se vai a um fotógrafo de arte, que custa uma fortuna, ou a gente fica com cara de director de banco”.

Não sendo fotógrafo de arte (nem por uma fortuna) estes instantâneos foram a forma que encontrei de não ficarmos — nem ele nem eu — com cara de director de banco.


Nas vozes eu penso muito, e elas em mim cosem o seu pano. Lugares apontados além do que poderíamos por nós próprios saber. Era tudo mais longe como ser português em séculos de que hoje se orgulham sem ter ideia do que eram feitos os meses, como defendíamos a solidão uns dos outros, nos era difícil falar, a boca magoada de havermos tentado juntar uma simples frase. Se a voz crescesse o suficiente para abafar as tempestades. Além de manchado de luas o meu nome tinha o que julguei ou me convenceram que fosse já a nódoa da morte. Passei dias com as velhas a lavá-lo no rio, e, naquelas águas que me descarnaram os poucos gestos, pude afogá-las. Tive o descanso dos doentes por umas semanas. Mas logo as árvores se quedam no meu caminho, algumas morrem nos próprios braços. Delas fizemos a jangada fartos da terra, do golpe seco dos horizontes. A sede aguça-nos, inventamos tantas coisas, ficamos como um mar roendo a espinha de um peixe, passando noites de cabeça encostada na pedra de fontes obscuras, até que se iluminam bruscamente em nós versos terríveis, memórias alheias que nos bebem a sombra como se nos apagassem do mundo. Fazem-nos duvidar do que fomos até ali. A própria infância parecia já não nos ter visto crescer. Coisas que inventamos e nos conhecem pelo cheiro, nos seguem esfomeando-se. Por isso ninguém volta a casa, e nem o tamanho da volta se sabe. A mim a história do meu país arrastado pelo vento trouxe-me uma luz cansada de andar, uma toda descosida que com as duas mãos veio apalpar-me o primeiro rosto, doce e antigo. E lembrei-me como, na minha terra, havia enterrado um centauro, o último, como o encontrei e ele tinha ainda a pressa no sangue, e estava arfante, já desgastado pela fúria das suas visões. Fizemos-lhe o luto, alguns ameaçaram enterrar-se com ele (nem um o fez). Os outros, viemos buscar o que dele parece já correr-nos também no sangue. Tínhamos agora um idioma como força, um arrepio debaixo da pele das coisas. Nada mais voltaria ao seu gosto literal. A morte percebia-se nitidamente nas vozes, era fácil de ignorar, e o tempo fora ficara limpo, aguardando esse ser educado pelos seus erros.

quinta-feira, novembro 24, 2016


A PROPÓSITO DE «PHOTOMATON & VOX» OU DE QUALQUER OUTRO TEXTO DO AUTOR 

HERBERTO HELDER

Agora o lugar e o tempo — fim do século, os idiomas, o mundo — são muito estimulantes. A época é literal e conformista. Divertir-se é quase obrigatório. Há juízes, julgamentos, justiças, justificações — há episódios por todos os lados para a gente rir, e depois a gente vai para casa e se porventura conservou limpas as suas fontes entrega-se jubilosamente a confundir a vigência: a gente desfaz e refaz as coisas, a gente diz: invenção, imaginação, inovação — e sem dar por isso encontra-se em estado excelso de irresponsabilidade social, sente-se responsável consigo apenas. Estou no centro de mim próprio; não me interessa este mundo da justiça de fora, o mundo dos juízes e julgamentos, não me interessam as justificações do mundo: estou só. Leva-se até ao extremo o divórcio libertador, é imponderável quase o trabalho de atingir o extremo pessoal. Em poucas épocas foi tão simples estar contra tudo, os outros, a nossa facilidade que se mostra nos outros, a tentação dos outros.
Os outros montaram as armadilhas eternas da terra: valores, a consciência dos valores, o seu poder. Se a gente possui uma parcela intacta para cuidar e preservar no meio da violenta, sedutora e corrupta legalidade de fora, a inocência é tão singela como isto: basta exercer-se, conduzir-se na sua obra de inocência. Nem é preciso a inocência demonstrar como pode ser assassina: mete-se em casa, escreve as suas palavras. Os outros aparecem e dizem: vamos julgar isto, medalhar isto, tirar a força da regra disto, vamos oferecer-lhe um sítio, e acabou-se. E então a gente pensa: que me importa que eles maquinem a sua maneira de me pôr num sítio vigiado? Não sou vigiável, encontrei o meu sítio, a minha inocência, ninguém me tira nada, ninguém me dá nada. O meu poder tem as suas palavras, as palavras do meu poder vivem dentro de si, não estão para fora, não fazem a guerra dos poderes de fora.
A mim parece-me que se não deve ajudar uma coisa destas, uma inocência que resolveu não sair de si para o poder externo. Os tribunais têm de condená-la, desterrá-la, decidir do seu extravio em lugar, natureza e tempo: não é daqui, não é contemporânea, é irrealista, ilegível, não faz sentido. Os tribunais mantêm-se no seu poder e justificação: julgar, condenar. Nada de astúcias: conceder uma oportunidade à culpa da inocência, premiá-la, tribalizar o poder privado, que a lei floresça com as virtudes extraordinárias da munificência, vamos dizer: está bem. Astúcia mais conveniente aos juízes que aos réus. Porque há nos réus uma estranha vulnerabilidade: um recesso deles, uma zona dolorosa algures na carne deseja repouso, paz, meu Deus, a paz, uma apaziguadora carícia, deseja o acolhimento tribal. Agora sim, agora começa a guerra: um poeta tem de torcer o pescoço à galinhola dentro de si que pede o milho da engorda, que aspira às grandes asas quiméricas, e quer levantar voo na capoeira e entoar o hino órfico dos idiomas, águia cantadora, a galinhola quer ser amada e glorificada.
Entretanto voltaram-se todos para: a morte de Deus; a soberania da cultura, da história e do quotidiano; acabou a inspiração, essa fulminante aliança entre a experiência e a consciência; o que não é procurado mas achado acabou, o que é magicamente e arduamente e profundamente achado, isso acabou. Não é altura para o louvor de poetas que declaram: não somos modernos, «todo o visível se apoia num fundo invisível» (Novalis), «que significa este poema? significa aquilo que fiz com ele» (Tsvétaéva), a circunstância existe transtornadamente no poema e o que está longe dele só ganha realidade quando se aproxima e entra e se ultrapassa em circunstância absoluta, em coração do poema, em poema da fala ilegal. E escandalosamente: veneramos as maravilhosas razões inaceitáveis de Bach e concordamos com ele em que a música se compõe para Deus, uma conversa com Deus. Deus? Que pretendem eles com este avesso de um Deus maiúsculo em cima ouvindo órgão e de um mestre de capela em baixo em som fiado? Deus morreu. Acabou o tempo cultural e histórico de Deus. Que tipos! Nem sequer sabem onde e quando vivem. Expulsem-nos da República.
Está melhor. Eu cá sou de opinião que não cabe aos juízes, ao tempo civil e ao templo civil, à República, encorajar a poesia, esta, a poesia bachiana. Só cabe ao Deus que morreu. Só a justificam o invisível onde se apoia o visível e o significado do que se fez com o poema e a realidade da circunstância absoluta no poema. Isto colocou-se tão à margem do juízo que não há perversão ou boa vontade que o engane ou lhe valha. Esta palavra está condenada. Bom é que esteja, pois uma palavra assim, antiga, dentro, inextricável, não se dirige à actualidade de qualquer gosto ou pressuposto. É anterior. A quem se dirige — agora — porque estamos num agora? Bom, espera talvez um tu virtual no eu que a proferiu. Espera que o Deus inexistente esteja de passagem pelo tu fortuito. A imprevista ressurreição de Deus, espera isso, espera o impossível? Mas se ela vive do impossível!, esta palavra condenada — a palavra do desencontro, fora, com o tema do lugar e do tempo do lugar.
É tudo quanto há para dizer sobre matéria tão complexa e aventurosa e contrária? É. E não me parece menor no capítulo de não fazer sentido. Não vou fazer sentido onde se costuma fazer, não, obrigado. Eu faço pouco sentido onde me não encontram. Sou inactual. 

In: Revista “A Phala”, n.º 46, Outubro/Novembro/Dezembro. Lisboa: Assírio & Alvim, 1995, p. 94.

Paisagem e povoamento


Vámonos, deixemos
derruído este lugar de flechas
antes que a nossa voz seja invadida
por uma espécie de gravitas,
gazua missal que obriga a um destino

Importa a baixa-mar ao fundo, importunar
o pai-tempo à laia de fisga,
como se a manivela não rodasse
ou a estrada tivesse explicação -
palmilhada, pedestre

Finita

- Luís Pedroso
inédito

quarta-feira, novembro 23, 2016

terça-feira, novembro 22, 2016

Jorge de Sena - Carta a um jovem poeta


Datada de 29 de agosto de 1966, esta 'carta' foi enviada ao poeta Walmir Ayala (1933-1991), para uma antologia temática que permanece inédita (Cartas aos jovens poetas brasileiros).

O texto foi publicado pela primeira vez no JL-Jornal de Letras, Artes e Idéias, de Lisboa, a 10 de novembro de 1981, p. 5


Meu caro jovem poeta

Pedem-me que lhe escreva, como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim — embora isso não seja dito — que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas. Creio que é pedir demasiado.
De um modo geral, os poetas de reputação firmada, ou que se julgam ou são julgados tais (ninguém tem a sua reputação firmada em literatura, nem depois de séculos de ninguém nos ler e de todos repetirem que somos génios, a não ser que isso importe aos interesses ou desinteresses de alguns professores e críticos), costumam receber poemas ou poetas jovens que solicitam opinião. O poeta "velho" toma tal facto como uma vénia, um reconhecimento, que ele teme perder, por parte da juventude. Mas o que o poeta jovem na verdade procura não é bem uma opinião de alguém mais experiente (qual o poeta jovem que, no fundo, se não sente superior a qualquer mesmo admirado poeta "velho"?), mas sim uma oportunidade de entrar, pela mão de alguém, naquele mundo maravilhoso dos poetas vivos, da poesia pessoalmente, etc., que ele descobrirá ser um sórdido e torpe mundo, inteiramente igual, se não pior (porque se sustenta de uma importância que realmente não tem), àquele, tão comum e familiar, que, nas suas frustrações juvenis, o poeta jovem julga que detesta. Instintivamente, ele sabe que, se não pedir a bênção de alguém, dificilmente fará sem amarguras o seu caminho. Porque a vida literária é uma maçonaria como qualquer outra, onde é escusado imaginar-se que alguém entra forçando as portas. Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos.
Se um conselho, ab initio, se pode e deve dar a um jovem poeta, é o de que perca a inocência juvenil, se venda, se prostitua (o próprio corpo, se necessário for, porque às vezes lho cobiçarão), se dedique à adulação da mediocridade triunfante, ouça respeitosamente as opiniões dos críticos mais influentes porque mais cretinos, e receba em troca a paz triunfal dos sucessos mundanos e literários. Se, depois disto, puder continuar a ser o poeta que havia nele ou que ele sonhava que seria, é um outro caso — mas, por esse segredo, poderá estar certo que ninguém perguntará. Forçar as portas, com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrência dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos — não rende. Nem em vida, nem na morte. Porque as histórias literárias, com raras excepções arquivo de tudo o que a mediocridade alguma vez disse sem ter lido, guardarão longamente, em benefício da posteridade, todo o veneno que os contemporâneos lançaram sobre aquele que, por pretender ser uma pessoa, e um poeta, lhes ameaçava, só por isso, a segurança. Ao jovem poeta, é preciso dizer-se que desconfie do grande poeta vivo que receba consagração geral. Se a recebe, é porque algo está podre naquele reino da Dinamarca.
Quanto aos seus poemas, meu caro poeta, como V. é um poeta inexistente, cujos poemas são imaginários, e como eu não acredito na Poesia, com maiúscula, preexistente aos poemas em que ela exista, que lhe direi? Eu não faço ideia alguma da espécie de poeta que o meu amigo é. Cultiva as imagens e as metáforas, no seu anseio juvenil de seguir uma das modas, e de parecer que diz coisas extremamente profundas, sem na verdade dizer nada? Ou prefere as palavras despedaçadas, uma letra para cada canto, ou os graciosos joguinhos do pata, peta, pita, pota, etc? Isso também se usa muito, e granjeia grande prestígio. Acaso faz ou não faz sonetos, pelo melhor modelo (que é o que funda a tradição parnasiana, um pouco erótica, para a masturbação em família, com os ornamentos do mais safado mas sempre brilhante gongorismo)? Ou está preocupado com os destinos do mundo ou os da pátria, e confunde-os com aquela inacabável tradição que manda os poetas imitar os Nerudas & C.a? Ou a sua poesia é extremamente vaga e diáfana, confortavelmente distante de qualquer afirmação excessiva, neste duvidoso mundo? Ou, pelo contrário, é amplamente discursiva, transbordante de riqueza (termo este muito usado pelos críticos em petição de matéria substantiva)? Como vê, meu amigo, não posso mais que aventar hipóteses, segundo as linhagens mais ilustres do momento. Oh, mas esquecia-me de outra: acaso será herdeiro do surrealismo, com alguma tintura de beatniks e de psiquedélicos da Califórnia e arredores, e compraz-se em insultar o mundo, insinuando perversões horríveis, e despejando sobre ele os palavrões sagrados, por extenso? Não? Não?! Então, meu caro amigo, das duas uma: ou a sua poesia é um regresso aos velhos padrões arcádico-românticos, e sem dúvida terá êxito ainda nos salões de uma profunda província, ou, na verdade, o senhor é um poeta. E, sendo poeta, é-o de tal modo, que a sua poesia não pode ser reconhecida, nem o senhor tem o direito de esperar que ela o seja. Daqui a vinte ou trinta anos, quando estiver alquebrado, exausto, esgotado, descrente da poesia a que sacrificou a sua vida e a de quantos tiveram a desgraça de depender de si, talvez então comecem a reconhecer que o senhor existe. Claro que muito a contragosto, muito de má vontade, com muita reticência… Eles, meu caro, serão sempre os génios; o senhor será também um génio, um génio imenso, um génio enorme, mas um génio mas, um génio adversativo. E pode ter a certeza de que assim ficará nas histórias literárias: sempre com um mas tanto maior, quanto pior seja o génio que não possam negar-lhe.
A poesia, querido amigo, não é o que pensa, não. Ela não lhe pode trazer, se verdadeira for, essa satisfação que transparece da sua tão trémula confiança em si mesmo. Isso, se me permite que lhe diga, é uma ilusão da sua juventude. A poesia não é essa alegria de fazer alguma coisa que nem todos os outros fazem, e que eles aliás desprezam. Não é também esse prazer enganoso de que possui com palavras o amor que lhe escapa, as coisas que não consegue, as ideias que perpassam na sua cabeça, antes ou depois da solidão. A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa. Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o "si mesmo" está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu, sim, mas também ele o senhor vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor pensa e escreve, e que, por sua vez, é já uma abstracção do que o senhor viveu ou não. Medite um pouco no significado terrível deste ou não, e nunca mais escreva versos ou prosa poética, ou lá que é que escreve para se julgar poeta.
Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser. Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida? Se é, meu caro amigo, então não mande os seus versos a ninguém, não peça opiniões que ninguém pode dar-lhe, não espere conselhos de uma experiência que é pessoal e intransmissível, não solicite uma atenção que não haverá quem lha conceda. A menos que, para fim de festa, pretenda tirar, para seu uso, a contraprova de que a humanidade como humanidade, os povos como povos, as nações como nações, as classes como classes, os grupos como grupos são sempre colecções mais ou menos numerosas de infames bestas. Ou a contraprova de que, individualmente, ninguém vale para além do orgasmo, ou do olhar de simpatia, ou do gesto de ternura. Ainda quando sejam poetas, meu caro, ainda quando o sejam.
Não lhe estou dizendo que não publique os versos, uma vez que tenha ânimo e força para aguentar-se no equilíbrio instável entre a condição de prostituta e a condição de monstro. Na verdade, se a tentação que sente é irresistível de escrevê-los, se não procura a fama ou o proveito, se a dor de escrevê-los só se cura com a dor maior de escrever outros, se se sente vazio e triste quando eles estão escritos, e sofre de sentir-se vazio quando vai escrevê-los, e não sabe nunca o que vai escrever, e acha horrível tudo o que escreveu mas não é capaz de destruí-lo, então publique-os, publique-os sempre. E mande-os a toda a gente. Toda. Mas não peça opiniões ou conselhos a ninguém. Deixe que eles todos fiquem amarrados, para sempre, à culpa de o não terem lido, de o não terem sentido, de o não terem admirado. Dê-lhes, se a glória tiver de ser sua, o castigo da sua glória, implacavelmente. No fim das contas, lá onde nas trevas os dentes lhe rangem furiosamente, que isto lhe sirva de alguma consolação: todos eles passarão, como os ratos passam. Mas alguma coisa não passará, por mais que na morte, no silêncio, na paz dos túmulos ou das histórias literárias, se desfaçam em tranquila cinza: essa culpa que, dentro de alguns anos, será tudo o que se recordará deles todos tão poetas, tão aplaudidos, tão queridos das damas e/ou dos efebos, e tão estudados, tão bibliografados, tão comemorados, tão tudo o que lhe terão recusado entre dois abraços e dois sorrisos. Outros ratos virão — mas a culpa fica. Bem sei, meu caro, que não adianta muito, sobretudo se a gente não acredita na imortalidade, ou mesmo que acredite. Consola porém alguma coisa. E dá coragem à gente até ao poema seguinte. É quanto basta. Ou tem de bastar, porque não há mais nada.

Sempre seu (que o manda para o Inferno que é nossa província)

Jorge de Sena

Museu de Belas Artes


No que respeita ao sofrimento, nunca se enganavam
Os velhos Mestres: quão bem lhe compreendiam
A humana posição; de que maneira ocorre
Enquanto alguém está comendo ou abrindo uma janela ou somente andando ao léu;
Como, quando os de idade aguardam reverente, apaixonadamente
O milagroso nascimento, deve sempre haver
Crianças que não desejam particularmente que aconteça, patinando
Num lago junto à beira da floresta:
Eles jamais esquecem
Que mesmo o pavoroso martírio deve prosseguir seu curso
De qualquer modo num canto, nalgum lugar desasseado
Onde os cães levam sua vida canina e o cavalo do algoz
Raspa o traseiro inocente de encontro a uma árvore.

No Ícaro de Brueghel, por exemplo: como tudo volta as costas
Pachorrentamente ao desastre; o arador bem pode ter ouvido
A pancada n’água, o grito interrompido,
Mas para ele não era importante o malogro; o sol brilhava
Como cumpria sobre as alvas pernas a sumir-se nas águas
Esverdeadas; e o delicado barco de luxo que devia ter visto
Algo surpreendente, um rapaz despencando do céu,
Precisava ir a alguma parte e continuou calmamente a velejar.

- W. H. Auden
(Tradução de José Paulo Paes)

"Lançamento", de Margarida Vale de Gato



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

segunda-feira, novembro 21, 2016


As pragas do Egipto em ti, doente de teres bebido do rio pontuado de corpos como nenúfares, fosse eu o outro tempo, um voltando atrás, impregnado de ira, deus em doses pessoais como o veneno ou a atitude honesta de virar-se contra si mesmo. O que há a fazer com essa boca a estudar-nos o ouvido, a dizer-nos a nossa história num além-ritmo de sonho, fremindo a cada palpitação, enredando-se, um sabor começado e nunca acabado, de flor mais velha ainda por decidir-se sobre a sua estação, no ressumbrar de cinzas, entre a sombra e o nome das coisas, esse pulso sísmico revendo um tempo com gente que ainda existisse, a pôr a cabeça na linha, só dificilmente nalguma ordem, cada pedra num monte, a pedra selvagem humilhando a dos templos, fazendo-os vir abaixo, assumir uma convicção letal contra o risco de perder a razão, a tal ponto que seja preciso montar guarda na fronteira da realidade, assistir às migrações dos pássaros, seguir rastros, saber do contágio das sementes entre flores de vaso e as que neles fazem harakiri, por abelhas sem experiência. Ainda és pouco mais que a mesa, escreves separado, a mão vê mal, troca a lente, puxa o sol, faz um buraco na folha, e a demência toma licença das tuas palavras, esta gente... Tomei interesse, montei um posto avançado, fui ver, espreitei dos lados todos, quebrei a casca, vi a coisa quieta julgando-se a sós, vi-a metamorfoseada, as patinhas espalhadas pelo chão, as asas aos cantos dos lábios, uma dieta de moscas, a ver vídeos na internet, vi-a atravessando a rua, apertando a bota na esquina do planeta, havia um balanço, um horror e beleza travestidos, mas nada que justificasse, nenhumas atenuantes, tudo perdido no mesmo passo fosse qual fosse a direcção. Fui levando as miragens para o laboratório, vi no microscópio e no telescópio, acabei com uns punhados de areia, esses que cada um leva e traz no tráfico deste imenso deserto. No meu relatório concluía apenas: quase ninguém existe. E se o repito é porque da primeira vez ainda parecia cedo, foi dado mais como um bestial avanço lírico, e o lado terrível ficou sob o tapete do espanto, como se tivesse passado outro anjo para limpar o esterco do homem, mas nesse verso era como se deus houvesse sido escutado atrás de portas, desse verso eu quis fazer uma pá, abrir a terra, arrancar as raízes até aos astros, e enterrar meio mundo, não, na verdade, era preciso muito mais. Ia ser épico, e eu não sabia como. Fui ler, era preciso ter uma ideia como foi que, um a um, os génios haviam chegado todos à mesma conclusão, e de algum modo estoiravam os miolos, procuravam apagar o mundo como se bastasse apagar a luz. No escuro tudo só piorou. Tudo mais se imitava, cada uivo de dor, o mais everest logo era trepado, puxado até cá abaixo e feito eco, atirado numa composição barroca, empurrado para os teatros e depois adaptado a correr ao cinema, muitos efeitos especiais em cima, e pipocas. Bolsos fundos, truques com espelhos, ilusões de perspectiva, a própria literatura feita um cemitério para perder a vista, e o sangue adaptara-se, já preferia o que era de natureza mais amarga, muito perto de se tornar também frio, e não havia mais gosto nas coisas senão sair para o meio do mundo, deixar o monólogo interior, como dizia o Michaux, e bater, não deixar passar um, caralhos ta fodam, anda cá, até os pôr doidos em roda, e olhando pelo reflexo do céu ver outras clareiras, ir saber, afinal, quantos somos, o que resta vivo, quem vai gastar os últimos cartuchos?

Grupo do Gelo. Seis décadas de um café à beira do abismo


Há 60 anos, um grupo de jovens indómitos começou a frequentar o Café Gelo, no Rossio. Unidos por divergências comuns, criaram um «exílio criativo» que teve enorme repercussão na arte portuguesa do século XX.
Para lembrar o Grupo do Gelo vamos ao fim e depois logo veremos o que começou por ser. Conta-nos Luiz Pacheco como no 1 de Maio de 1962 Lisboa se pôs a estrebuchar, as ruas fartas, cheias de uma gente lixada, que se manifestava, e logo chegou a polícia de choque, «armadíssima e vigilante e aguerrida», houve pancadaria na Baixa e Rossio, e houve «tiros, mortos, feridos, correrias, cacetada brava: carros de água e não só: azul de metileno, a porcaria duma tinta que sujava tudo, marcava os manifestantes». É o que havia no país quando alguém se lembrava de desgostar das coisas como estavam. O povo nesses dias era mais para ser mosca e comer  tudo o que lhe deitassem no prato, mesmo se lhe soubesse pior que mal.
Nisto houve uns que se reuniam no Café Gelo, «junto à esquina dos telefones no Rossio», que, não contentes com a bela vista para a zaragata, terão arremessado açucareiros de metal contra a polícia. Uma nota: era assim chamado, segundo Helder Macedo, «por causa dos blocos do dito gelo que levavam para lá das serras, nos tempos inaugurais d’El Rei D. Carlos». Voltando à confusão, Pacheco garante que se pôs muito quieto, no seu cantinho, mas a confusão gostava demasiado dele, e porque tinha a seu lado «o pai da Fernanda Alves e lembro também a Fernanda, o Ernesto Sampaio, o Virgílio Martinho, o João Rodrigues», bastou um pequeno incidente e veio a polícia distribuir porrada por todos. «No dia seguinte, o Cerqueira, gerente do café, foi chamado à esquadra do Nacional e ficámos proibidos de frequentar o Gelo.»
Este foi o fim de um grupo que se reunia no café que ainda lá está, hoje algo mortificado, com painéis a fingir orgulhos históricos, servindo uma clientela mais de passagem do que propriamente de assíduos frequentadores, e muito menos de poetas na demanda do «elixir de vida curta,/ de longa morte lenta e absoluta/ e sílabas secretas», como nos diz o retrato de grupo que fez António Barahona na sua Memória do Café Gelo. Findas as tertúlias, o grupo foi ficando mítico, coisa que acontece por cá à medida que o tempo, apesar de tudo, passa, e porque pouca coisa traz de realmente novo. Dá-nos para «os saudosismos exaltados», segundo Pacheco. Já Helder Macedo, ao lado do saudosismo, fala de «uma nostalgia por qualquer coisa que hoje não poderia haver, e ainda bem», mas lembra que o pior deste vício «é uma tendência para neutralizar os riscos que aquelas pessoas tomaram».
Porque o Gelo foi uma espécie de reduto na Lisboa que se queria a capital de um Império perdido do avanço da história, como da cultura, uma pátria encafuada na sua pequena moral. Houve ali um grupo de jovens que queria exilar-se, escapar aos seus destinos, fugir de tudo, até dos cafés literários, e foi antes de tudo um bando acidental que começou a juntar-se no café de onde, em 1908, Alfredo Costa e Manoel Buiça saíram para o Terreiro do Paço e mataram o Rei D. Carlos e o seu filho D. Luis Filipe. Mas como vem insistindo Helder Macedo, professor jubilado do King’s College, em Londres, «não havia um grupo de convergências mas um grupo de divergências comuns, que foram sendo manifestadas de variadíssimas maneiras».
Pelo Gelo passaram, entre outros, João Vieira, José de Sá Caetano, Gonçalo Duarte, Helder Macedo, José Manuel Simões, João Rodrigues, José Escada, Herberto Helder, Ernesto Sampaio, António José Forte, Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Henrique Tavares, Saldanha da Gama, António Gancho, António Barahona... Pacheco lembra como não só não havia  homogeneidade etária, como não se respeitava «nenhuma programação estética». Mas se «dali não saiu Revista, doutrina, escola que se aproveitasse», seis décadas depois o que explica o saudosismo em relação a uma vivência dissidente que, segundo Macedo, foi em grande medida inventada pelos que se põem a imaginar aquela salganhada?
Talvez a explicação se cinja ao espanto de saber que ali conviveram alguns dos espíritos que viriam a ter um papel transformador da arte portuguesa no século XX, e particularmente no que toca à poesia. Mas além dos poemas, do que chegou aos livros, houve a vida que abriu como «bruta flor do querer». Diz Pacheco que naquele «espaço de convívio em liberdade plena, feroz e mútua crítica, nenhuma contemplação pelo arrivismo, a vida prática, as etiquetas sociais que noutros meios, da mais categorizada Oh Posição oficial se evidenciavam. E houve suicídios, amores desatinados, gente perdida para sempre».
É por isso fácil colher um grandioso mito a partir de uma época em que os cafés são famosos apenas por aquilo que lá se come. Célebres são os pastéis de nata, as milhentas variedades dos bolos tradicionais, a vidinha que se oferece e consome no seu convencimento gourmet. E o convívio, nos cafés, como nos transportes públicos, como em toda a parte, passou para a internet, para as redes sociais. E a palavra ou o juízo, que já não são proibidos, valem menos que os números, contam mais consoante os likes. A crítica, por mais feroz, é neutralizada por vagas incessantes de elogios.
É natural, assim, que o mito se sinta varrido deste tempo e busque ligar-se ao passado, àquelas «mesas de mármore, cadeiras sépia; eis um café à beira do abismo», como o ilustra Barahona na belíssima evocação dos seus versos, que revivem «conversas incendiadas, sismo a sismo,/ no desabar da época.// Revolta, ódio, fome, febre atroz:/ no riso pode haver isto e tristeza/ e grande amor do sonho, e da beleza/ a que o grupo dá voz. // Não morreu este grupo: é perene/ seu eco que deixou alto-relevo/numa parede-mestra, aonde subo (...) e vejo/ uma mesa ocupada por nós todos:/ assembleia de pássaros ignotos/ em ilhas de desejo.»


sábado, novembro 19, 2016

DE PROFUNDIS

(O PORTO A SÉPIA)

São tantos os lençóis estendidos nas fachadas
que a cidade parece um barco fantasma pronto a zarpar.
A Solidão e a Esperança, duas velhas viúvas, jogam às cartas.
Cristo crucificado vigia desde as varetas de um cometa.
O filho mais pequeno do coveiro arrancou as rodas
de um carrinho de bebé e agora conduz um esquife de corrida.


Por todo o lado há lentos gatos que deambulam
com cuidado, como se tivessem medo de fazer tudo em pedaços.
Gatos negros, famintos, espectrais, antiquados.
Gatos obstinados em ser gatos e nada mais.
Chegaram a esta distante chanfradura do mundo
para velar a mancha cega do oceano.

Por fim o Atlântico: o mar abre-se e fecha-se
como a cortina de uma tragédia inacabada.
Na Praia dos Ingleses um caranguejo inicia a retirada,
arrastando a sua pesada armadura acobreada.
Memória, onde te diriges a estas horas
retrocedendo da mesma forma, embuçada
e torpe, mas desprovida de couraça?

A chuva introduz água nova na velha fugacidade do rio.
Em barcas e lojas os capacetes marciais das térmitas
despertam da sua sesta os cavalos do Apocalipse,
Os segundos perfuram cada minuto e ameaçam ruína.
Uma anciâ benze-se na igreja escorada.
Parece que quer partir em quatro um grande medo
ou afugentar uma nuvem de moscas inoportunas.
Depois de introduzir a sua moeda na máquina

do Senhor, poderá durante uma hora e meia alimentar uma vela.
A vela treme um instante, titubeia e logo se põe de pé.
Vela, esperança de voo curto, barata mascote dos pobres,
o que iluminas? O sacristão agacha-se na escuridão
para calçar com três ou quatro hóstias um velho banco que coxeia.

- Jesús Jiménez Domínguez
(tradução de Jorge Sousa Braga)
in “Contra Las cosas redondas”