sexta-feira, abril 28, 2017

"Júlia", Teatro do Vão, no São Luiz



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quarta-feira, abril 26, 2017

língua morta 073

 
 
NOITE VERTICAL,
de Zetho Cunha Gonçalves,
capa a partir de gravura de Gustave Doré

[250 exemplares, 112 pp., 10€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com

segunda-feira, abril 24, 2017

De Pacheco a Mexia


Aproveitando o excelente paralelo estabelecido pelo Pedro Piedade Marques, esta nota ia para um especial sobre o 25 de Abril, antes e depois, mas... fomos "autocensurados":

A NOVA MORDAÇA
(De Pacheco a Mexia, do “Diário remendado” ao crédito “Malparado”)
“Há uma autocensura na vida quotidiana que nos faz civilizados, ninguém diz tudo o que lhe passa pela cabeça”, disse há dias numa entrevista ao “Diário de Notícias” o bloguer, cronista, poeta, crítico literário, crítico de cinema, editor, comentador político, comendador, conselheiro cultural do Presidente da República e tudo e tudo, Pedro Mexia. Magnificente exemplo do nepotismo que nunca perdeu o viço na nossa sociedade, e um dos mais célebres diaristas, cavaleiro da ordem do bom senso, zelador-mor da pátria contra os excessos, poster-boy do país dos brancos costumes, Pedro Mexia ataca as redes sociais e o Facebook enquanto vive hoje numa espécie de reality show em várias plataformas e canais mediáticos, onde partilha os seus gostos e assume os máximos cuidados para não melindrar ninguém. Como notou o editor Vitor Silva Tavares, serve para nos lembrar que se isto “mexia, já não mexe”, talvez porque a liberdade soube internalizar o espírito de censura. Se tivemos Luiz Pacheco, que nunca deixou que a literatura se confundisse com uma récita para consumo burguês, para consolo das famílias e defesa dos pacatos valores “cristãos”, hoje temos esta omnipresente figura evangelista com a sua missa da moral e decência. Em tudo o que Pacheco foi exemplo do excesso e da depravação, misturando sangue e tinta na defesa da vital via libertária, Mexia faz as suas meias tintas deitando água benta e é o nosso sacristão de Estado.


Aprende a pronunciar correctamente a realidade, ouvia-se. Os que passávamos criando a nossa atenção éramos já de outra língua. Havia a fronteira desenhada por trocas de olhares; o que eu vi era menos do que eu sabia estar lá: cada forma sussurrando a outra no escuro, frases meio ouvidas, as coisas que lançávamos, rolavam de volta após uma pausa mais extensa ou menos, umas vezes até esquecíamos, de outras tirávamos ilações sobre a disposição do que nos segue tão friamente. Mas há guardas nas passagens, porteiros endividados, leitores de segunda ou poetas de merda. A cada tempo a sua Santa Inquisição, os que vestem o hábito, dão a missa, o pão triste que tanto mastiga os miseráveis. Já se aprendia só com o tédio a planear a evasão, fincar paus, um mastro no chão, prender velas a um pedaço de terra, levantar a casa, tirar a corda amadurecida, aguardar por ventos desses tão brutos que deixam o texto todo esgaravatado, forçam erros de ortografia e marcar as estrelas nos pátios onde incompreensivelmente crescemos, deixar ameaças muito claras: se não dermos com nada havemos de regressar do lado da catástrofe, pior que antes, puros montecristos. Não aguento mais um dia desse copo, esse fundo do mar que tanto buscas, fazes o sinal da cruz, dizes que não te comoves já por nada deste mundo, como se te guardasses para o outro. Caída fora do sonho, a mão vai tirando notas, diz-nos o que havemos de esperar. Tinhas a imagem de um poeta grego que falava de homens a apodrecer em bosques fantásticos, tinham abandonado a perfeição técnica, não queriam nada com a rosa pública, mas buscavam a violeta desgrenhada nos cafés subterrâneos... Que eu saiba nenhum se interessava por dizer coisas estranhas, só não virávamos costas. Se, escavando, se achasse um osso inexplicável, uma composição extinta que fodesse com os catálogos, um esqueleto que atirasse de volta a imaginação à selva, então lá íamos: carabina, cachimbo, canhenho, o coração que cada um ainda pudesse suportar. Isto depois de ter subido às árvores para ver como os astros vigiam a cama às mulheres, ganhar-lhes um medo doce, de apreciadores discretos, seguir-lhes os passos matinais entre a erva que cresce mais depressa. Atava os cabelos dela a mesas e cómodas, nos lugares mais estranhos tirava um, nos buracos mais fundos, espalhando essa harpa aflita, que toco raspando o fundo de um cheiro, uma data num postal. Não me interessa mais nada, não fui saber onde pára. Estes, pelo contrário, acabam metidos num corpo só com elas. No escuro não têm nada, nem uma mala, falta-lhes a imaginação, julgam que vão morrer e, naturalmente, é disso que morrem.

sábado, abril 22, 2017


A coisa desfez-me o rosto, já não sei se filme ou sonho, desses muito tremidos, de ranger os dentes, a perder de vista a terra inteira, tudo a ficar minúsculo, mas a ela vi-a grande, junto ao rosto deteve um relâmpago e acendeu o cigarro, talvez o tenha lido, vejo agora o meu dedo a seguir o texto, ou foi-me descrito tão belamente?, borro tudo, então víamos a imagem sob grandes lentes, as partículas lixar a realidade a um nível subatómico, arrastava cada um o seu telescópio, da espera um tipo faz a sua especialidade, sabendo como a cada mil anos um rouxinol se engasga, cai morto num verso, este consumo de vidas, que órbitas nos resistem?, peritos em colher aves de voos muito antigos, figuras de louça, dar-se às ruas para perder-se das palavras, adoecer a vista, davam-nos alta e voltámos lá para dentro, o torso todo azul de tatuagens, uma solidão das de enfrentar a mil, cuspir sangue nos canteiros, ter o mapa e sentir o que dói, a cara partida, mal vendo de um olho, ter um animal absurdo à perna e a sombra em parte incerta, mas seja, porra, tudo por um sentido como esse rio que o outro viu levar cadáveres de mulher, a eternidade também tem baixas, animais de ventre aberto, rios desviados por carcaças, um cheiro impossível que as flores amarelas não disfarçam, o corpo adormecido ao frio era o meu, estava deitado para saber das águas o nome dela, o céu àquela hora já havia metido os pássaros nos bolsos, um vento ia e vinha indeciso sobre que morte contar, nessa altura eu já andaria desaparecido há meses, não me viu a um espelho decente, imaginava o meu ar doce de abandono, desses que ficam tão embebidos de luz que se lhes vê o coração, gesticulando sem sentido, fazendo de mim mesmo um eco, medindo a passos o jardim, para ter uma indicação técnica qualquer a que me agarrar, dessas hipóteses doidas dos que não têm onde ir, o meio-dia para mim então era já de noite, ainda me era difícil dormir neste mundo, mas as ausências já ninguém notava, algumas emendas, electrocussões, andava fino, era um ser apaziguado, a loucura tinha-me achado bonito.

quarta-feira, abril 19, 2017

Dinu Flamand, "Sombras e Falésias"



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A cada um as suas armas, as mulheres que amou,
os homens que defendeu do juízo moral dos outros,
a cama onde um dia se viu abandonado,
rodeado de cruzes e velas.
Das linhas que tremo, roda-me a lâmpada
interior à carne, a claridade
chega aos ossos numa duração insaciável,
afaga-me as pétalas do sangue,
arranca-lhe o eco, inspira o perfume
das figuras que saem do escuro.
Falar com a minha voz depois de
tantas outras, dos violentos a quem tiraste
as cartas, e copiaste aquele ritmo que se aferrava à carne
como se tivera esporas, contavas que os viste
cair, que estiveras com eles na guerra, mas agora
que já ninguém faz luto pelos rouxinóis
e toda a gente escreve poemas,
não te podes valer de mentiras nem de verdades,
nem sequer do antepassado enterrado num canto
do pátio, homem que teve os seus méritos.

Se a folha ainda me arranca um traço,
pisa-me os ossos da mão, cospe a noite
em branco. Qualquer idiota que desafie
não me dá nada além de outra intriga.
Do duelo não ficará a honra de nenhum.
A distância é o meu único assunto,
de olhos bem fechados,
a sensação de entrar em comboios remotos,
a tresandar a esquecimento e ser embalado
pela trepidação desse traço contínuo.
Inclino a cabeça para trás, os dois animais
puxam as alças a um vestido.
Perdem o faro e eu durmo
minutos inteiros, alguns seguidos.

A um canto, como a carcaça de um grande peixe,
do piano basta-me a imagem para afinar o resto,
medir as relações na sala, degraus
descendo, os círculos que adivinham os
anos que virão, trabalho de insecto
este: detectar ruídos, tirar de passos ouvidos
em tempos tão diferentes um caminho.

Terra e água num copo, a raiz amarga
que lá tenho, escuta atentamente,
moendo tudo para épocas futuras.
Lá fora, o mar como um pássaro só
descansa, revê todos os finais, mil capitães adormecidos
enquanto os navios entrechocam docemente.
As noites passam em braços,
levanto a casa, feita de pedra negra, às vezes
o ar fica tão pesado que me obriga
a fazer mais furos. Trago num cântaro
sobre a cabeça a água de um poço onde dorme
o reflexo de um desaparecido.
Os cometas atraídos caem longe
para que os sinta. Aqui os jardins escutam
as flores, a morte diz o nosso nome
e nós vimos esperá-la formando filas.



terça-feira, abril 18, 2017

Alface, "Cuidado com os Rapazes"



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sexta-feira, abril 14, 2017

Futurismo




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quinta-feira, abril 13, 2017


Acabou-se a pressa, à ansiedade tenho-a como a uma doença íntima, pequeno pavor que faz as rondas por perto, se deixa ouvir, trocando acusações em voz baixa, cospe nesta direcção. Abdiquei de tanta coisa mas ainda a ouço, e por vezes somam-se dias antes que complete um sentido, como cair de um tiro que atravessou órgãos vitais, alguma noção preciosa, mas cair só muitos passos à frente, espantado mais pelo silêncio de tudo, o fio de sangue feito um bebedouro, a antecipação no rosto de todas as coisas. Dás por ti vítima desatenta de actos que em tempos te viravam o sentido do sangue nas veias. Hoje está frio, pode ser que se tenha operado em ti uma forma de extinção, sem dares conta, passando à frente algumas páginas, trocando a prosa de tom insinuante, o ritmo frenético, às vezes espumando, por uma secura, incapaz de obter mais do que o eco das frases, com o seu ritmo preso nos galhos, restos de roupa, os pés feridos depois dos sapatos terem, por si, decidido voltar. Deixei de ver luzes há um bocado, não imagino que num breu destes haja povoações em torno, outras bocas quebrando a frieza do ar, tornando mais fácil que também o respires. Sabes o muito que a manhã faz pela civilização, até por cortar o caminho àquilo que começamos a ver com clareza no escuro, quando os sentidos se alteram. Mas a próxima manhã talvez nem dê com isto, seja como for, vai dar-nos o tempo para descermos o suficiente, quando nem caminho nem corpo sejam certos. É a própria fadiga que, além de um certo ponto, não dá mais corda a qualquer sensação, nada tem pureza, não faz fé no que ouves soar alto de uma parte a outra da consciência. Se o terror desponta, logo se mistura nele algo de patético que te força o riso. Uma estranha fascinação lança um instante sobre o seguinte, todas as impressões amachucadas, a memória cosida com linha grossa por uma mão que treme algo delirante. Como se pensasses com o próprio bosque, o movimento é o seu transe, a resistência de cada som, cada tronco, parece que cada coisa ao partir-se te deixa mais fundas marcas dentro. Quantos passos terás antes que se desfaça tudo? Pode ser da hora, talvez seja finalmente muito tarde, tanto que só reste o cuidado de não poupar quaisquer forças, nada. Tirar de si cada passo, dar à carne a altura final da sua derrocada, deixando para túmulo um longo rastro.

domingo, abril 09, 2017




Os pássaros largam num grito indecifrável,
as árvores estalam capazes de se desenraizar.
De um quintal a outro, os frutos ardem,
lançados acima dos muros com as pedras,
e as nuvens atingidas encharcando as ruas.
Eu só os tinha visto crescer
daquela maneira ao longe, ouvido no chão,
a terra telegrafando uma carga de cavalaria,
os rapazes levantando o pó, ecos esmagadores.

Ela garante-me que não somos vistos
pelos nossos sonhos, então foi isto o que restou
do meu cavalo; nem o selim, só uma lembrança.
Ele diz-me que o seu nome só reteve da infância
os reflexos de um frasco. Não sei que grilo
o traz acordado até tão tarde. Ao menos eu
sinto ainda a porta soprada, recobro intacta
aquela manhã que fez a descoberta do canário,
tenho a vista da janela emoldurada, agacho-me,
finjo que sei ler rastros, sei pelo menos como
de quietos caminhos inventámos os outros,
da poeira erguendo-se, dos meandros de água
e dentes de leão, fazíamos uma boca,
interpretávamos tudo. Calados, ainda
ouvimos a floresta tropeçando na flauta.

Daqui, os passos já não fazem as distâncias
tremer, os dias não pegam, perdi a narração.
A brevidade da mão basta para medir incessantemente
a distância da porta ao último jardim.
Vivo dedicado a ganhos invisíveis,
entre as palavras só espreito intimidades
desnecessárias, a respiração épica esvaiu-se
inteiramente dos nossos hábitos.
Num dia bom, bêbedo de sede e de sol,
sigo desconhecidos imaginando
o que poderão fazer por mim.
Regresso ao quarto, ao trabalho.
Com a subtil reverência da abelha,
estudo as leis físicas em busca da falha
que me leve às outras. De resto,
já só nos livros encontramos os vícios
dos grandes devoradores de épocas,
fumadores de ópio, os bebedores incansáveis
de olhos fixos na própria morte.
Não lhes sinto a falta, oiço-os bem.
Mas a geração à qual pertenço
é pior que nada, não deixa gosto algum.

Lavo os pratos, olho para o lado, fito
a expressão egípcia no rosto do gato.
Dividimos tudo, ocupamos a mesma
extensão. E trocamos apontamentos.
Ele tem espinhas milenares escondidas
nas gavetas, carcaças cintilantes
de lepidópteros raros por estas partes.
Um tesouro oculto que me diz muito
sobre aquilo que vale a pena preservar.
Como eu tenho sobre os meus papéis
aquela pedra escura a alimentar-se
de um velho ressentimento. Um corpo dissipado,
estrela entre as minhas cinzas. Esse verso que
pus de parte, em que a vejo enxugar-se
da tempestade, em que o seu olor se alia
singularmente à obediência da minha memória.

Tudo o que aprendemos, o gole de água
retido na boca enquanto morríamos
de sede, esse gole que encurralamos numa frase,
para deixar noutra boca o gosto de uma
infância deixada para mais tarde.



quinta-feira, abril 06, 2017

"Paula Rego, Histórias & Segredos"



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quarta-feira, abril 05, 2017

Alexandre O'Neill, "Poesias Completas & Dispersos"



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terça-feira, abril 04, 2017

Miguel de Carvalho - livreiro antiquário



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segunda-feira, abril 03, 2017

João Gilberto Noll




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