sexta-feira, dezembro 15, 2017





Teria de fechar um piano à fome na memória
para arrancar-te de lá
a corda no sangue com que te puxo
já mal aguenta o aroma, a altura
o poço, as cuecas à tona dessa água de estrelas
com tanta noite debruçada

meses e foi só isto
escolher flores, levantar as cinzas
arrastar uma sombra cravada de flechas
putos e pedras, paus e punhais
as tardes os jardins um inferno
deixando pires de leite que os anjos
disputavam aos gatos
virei do avesso a vizinhança
e depois de meses
ouvi de um grilo onde moravas e fui
em expedição rio abaixo
falando do El Dorado aos homens
andámos em círculos, num tremebundo
tactear pela selva, muitos
deixaram o esqueleto dentro da armadura
no sopé de antigas muralhas de rochas
eu fiz a curva, tirei da flecha uma gota
de mel, oração negra de mil abelhas
colhi um trevo dos teus cabelos
lutei pelo que restava com as roseiras

o trapo de nada que vestias de verão
está ali, rasgado, escorrendo água
chove e um barulho de dados
cai e rola no fundo do corredor
desconfiança doce, ciúme antigo
nem durmo eu nem dorme nenhum
dos teus amantes
temos o prédio por conta
e levamos o lixo à vez, fumamos
à mesma hora voltados para o mesmo lado
com a varanda de frente onde um canário
desfia um velho
e ameaçamos de noite o mundo
de tudo o que não existe
vivemos às escuras e à luz
de coisas demasiado breves
presos e guardas fazendo as rondas
trocando desenhos versos gomos de laranja
o nó e o fosso, a hora mais fria
uma morte lenta pela lenda do amor



quarta-feira, dezembro 13, 2017


Querem um exemplo (real e recente) do tal simulacro de crítica literária que leva ao limite o elogio e não passa de bijuteria palavrosa em que é sempre possível trocar o nome do autor para servir com qualquer um?

«A inquietação deste drama advém precisamente dessa violência surda e insidiosa que se aloja a cada momento da sua ação, da sua estranheza que é construída por uma linguagem obsessiva e depurada, realçada por uma imagética impressiva e uma densidade metafórica assinalável. Podemos ficar envolvidos (ou não) pela estranheza desta linguagem, pela inquietação do seu universo ficcional, mas não ficamos imunes à contaminação que a sua leitura provoca. E se “[inserir título de obra anterior]” já revelava uma voz singular na ficção portuguesa contemporânea, com “[inserir título do livro em causa]” o nome de [inserir nome do autor] dificilmente poderá ser ignorado, inscrevendo-se numa linhagem de autores como Gonçalo M. Tavares, Rui Nunes, Jaime Rocha, Hélia Correia, Dulce Maria Cardoso ou António Lobo Antunes [se estiver para aí virado, aqui pode inserir outros nomes ao calhas]. Espreita-nos na sua obra o negrume de Dostoievsky e de Thomas Bernhard [e de Kafka, Faulkner, Céline, ou até de Asdrúbal] em todas essas figuras alinhadas pela constelação de uma escrita que tem o poder de nos dar o lado mais obscuro do humano e sem ilusões que a embelezem. Sem antídotos que a salvem.»


Também ninguém há-de ligar puto a este. Mesmo que seja dos melhores textos publicados num jornal, desgraçado meio, nunca tão maldito, alvo de tão grande desprezo de suas senhorias. Este meio no qual damos o litro assumindo uma condição abaixo da do proletário, sem representação, com um sindicato de badamecos, e com o fruto do nosso trabalho despejado na praça (tradução: dumping), distribuído gratuitamente! Imaginem se esta lógica funcionasse noutros sectores. Imaginem, seus merdas. E os leitores ainda nos vêm todos doutores-juízes, convencidos que ao dispensar uns minutos estão a "patrocinar" a publicação com o seu precioso clique. Nas bordas do penico, onde o meio musguento se alimenta do que salpica, e todos se enchem de ares para repetir que não há crítica literária no país, como se estivessem muito interessados nisso, como se preferissem recuar a um tempo em que quem escrevia, depois de publicar, andava semanas com um iô-iô de calafrios, semanas a tremer e a espiar diariamente as bancas com o receio de que um crítico se lembrasse deles e, ao invés dos salamaleques encomiásticos e vazios que hoje proliferam, lhes enfiasse um biqueiro que os deixasse a andar de lado mais umas semanas. E, assim, por estratégia, hoje, nem que lhes andemos aos chutos na cabeça com a crítica literária acusam a pancada. Já publicam só pelos likes. Duas ou três resenhas apalavradas com os amigos, uma rifa para o cabaz de algum prémio sorteado por uma dessas instituições de caridade literária gerida pelas marias que vão subindo umas pelas outras à espera da sua vez... E contentam-se com as patadinhas nas costas, os lançamentos multi-show-multi-média-junta-quarenta-parvos-em-palco-a-ver-se-vinte-vêm-para-audiência. Twenty Dwarves Took Turns Doing Handstands on the Carpet. E talvez o motivo seja simples: está tudo perfeito assim. Ambiente controlado, esterilizado, as crianças a salvo de todos os perigos, velhinhos idem, rampas para os deficientes motores, rampas sobretudo para os literatos retardados. Um lindo parque de diversões, esta merda. Um carrossel do tamanho do país, só espelhos e a macarena. Todos contentes. Se mexesse estragava. Ide-vos foder.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

"[...] - Ensaio sobre os mestres", de Pedro Eiras, Documenta



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


domingo, dezembro 10, 2017

"Macbeth", com encenação de Nuno Carinhas



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quarta-feira, dezembro 06, 2017

145 Poemas, Konstantinos Kaváfis, edição Flop, com apresentação e tradução de Manuel Resende




(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


língua morta 079



LITERATURA, DEFESA DO ATRITO,
de Silvina Rodrigues Lopes
(reedição do livro publicado originalmente
pelas Edições Vendaval, em 2003)

[300 exemplares, 170 pp., 11€]

quinta-feira, novembro 30, 2017

Man carrying thing


The poem must resist the intelligence
Almost successfully. Illustration:

A brune figure in winter evening resists
Identity. The thing he carries resists

The most necessitous sense. Accept them, then,
As secondary (parts not quite perceived

Of the obvious whole, uncertain particles
Of the certain solid, the primary free from doubt,

Things floating like the first hundred flakes of snow
Out of a storm we must endure all night,

Out of a storm of secondary things),
A horror of thoughts that suddenly are real.

We must endure our thoughts all night, until
The bright obvious stands motionless in cold.

- Wallace Stevens

Adam Jagajewski, "Sombras de sombras", Tinta-da-China



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domingo, novembro 26, 2017




estourado de ajudar a fantasia
com as mudanças, senta-se perto
toca-lhe a boca, a carne, deixa-a bêbada
como se abrisse um lenço
passa-lha para a mão e o assunto agora
é dos dois
as reticências, que bom, um bando
de estorninhos contornando o quarto

ao canto deixa uma maçã a apodrecer
abrindo uma porta, sai
caçador inspirado raspando flechas
que fazem curvas
fodeu e vem-se vestindo desde casa dela
som de riso nos passos, tontura coçada
marcas de pegadas e batom, bagos
de romã nos bolsos, asmático
da bulha entre aromas, arrota colibris

no tempo em que me escondia era isto
hoje já cruzo as mãos, é verdade
põem-me as algemas sempre que destrono o tédio
e me refiro àqueles poucos dias
enfiam-me numa sala com certa fundura de águas
que querem que lhes diga? que o fogo
começou no vestido dela, que já de si
a casa tinha por hábito deixar-se consumir
em chamas, confesso porra, eu assino merda
que a visitei caninamente
desci e subi o corpo penhasco
e mesmo se não ia, estava com os filhos
o marido, andei como o vento
pelos jardins a cheirar-lhe a roupa interior
vielas guardadas por gatos
compondo a noite em voz alta
caracteres móveis, as oito luas fatais rondando
garrafão, funil e o cosmos numa velha tipografia
tinha tempo, ia ver quanto me levava
trabalho para quantas abelhas? assim
daqui por uns anos tudo ainda
há-de dizer-lhe coisas, cobri-la de pássaros
tanto que a cerque e ainda sirva
de leitura para os astros

sexta-feira, novembro 24, 2017