quinta-feira, setembro 29, 2016

Marçal Aquino




(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


quarta-feira, setembro 28, 2016

Baudelaire


                        Para Anita Forrer/ em 14 de abril de 1921


Somente o poeta juntou as ruínas
de um mundo desfeito e de novo o fez uno.
Deu fé da beleza nova, peregrina,
e, embora celebrando a própria má sina,
purificou, infinitas, as ruínas:

assim o aniquilador tornou-se mundo.

- Rainer Maria Rilke
(tradução de José Paulo Paes)
retirado daqui

terça-feira, setembro 27, 2016

segunda-feira, setembro 26, 2016

Olive Kitteridge (TV Mini-Series (2014)



7/10

Mortórios


Desta vez não será um insecto
a carregar o ónus,
tampouco fungos, incêndios
ou trovoadas fora de época

A casa foi lentamente dragada
dos objectos,
engolida pela beleza lacónica do salitre,
pelo susto de ver o xisto esboroar

O cão desapareceu há quatro noites,
e gente - não há
só um silêncio leporino, incómodo
de abrir ventas

Nesse dia do diabo
as roseiras à cabeça das linhas
começaram a morrer
e todos sabemos o que isso significa

Faltam três horas para o alvor romper
e este homem, descalço e com data marcada,
contra todos os preceitos determina -
amanhã, vindima-se
para sempre

depois, é forrar o estômago
prepará-lo para o cheiro a mosto morto,
visceral mofo de arrancar vinhas

- Luís Pedroso
inédito

domingo, setembro 25, 2016


Mesmo que o nome falhe, me desfaça de espanto a voz, o que há de mortal a cada instante fere igual. Acordo e dou a volta à casa a beber os últimos copos do sonho, a reconstrução talvez comece por uma nódoa na camisa, mais sombria aos poucos, até que as próprias horas estremeçam, delas levantem os pássaros, um buraco de bala assobie calmo tomando o seu caminho através da carne, sinais de fumo, a passagem de mim a um estranho aberta. Mordido pelos mosquitos da lua, tenho ainda uma tontura e vou num ritmado pingo de sangue por arrozais a dizer alto o sonho para que a realidade não me siga, guio-me pela vaga notícia de que tive uma filha nalgum futuro amoroso, vim falar-lhe, vejo-a do outro lado de tantas noites sem fundo, enumerações, desastres, não vou lembrar-me de nada. Nesses tempos, deitados, era comum chover-nos à cabeceira, tínhamos lido coisas tão melhores sobre o desejo, dividíamos corpos sob luzes cada vez mais fracas, notei que se pedires noutra língua talvez nesta seja possível ouvir algo mais do que não. Tudo se diz do amor e da morte, mas eu vi-os juntos e senti o horror de se ter ao lado uma mulher das que da cama que lhes abrimos fazem uma jangada. A tua mãe era diferente, e amei-a até à última palavra que me viu de pé. Outras coisas escritas adquiriram uma súbita claridade, achava a manhã horas mais cedo, já quase não dormia, mas vigiava-te o sono, deitava pedaços de pão aos peixes e media pelo crescimento deles a profundidade da tua imaginação.

sábado, setembro 24, 2016


Faço companhia a monstros de segunda ordem num país acabado, com a sua lenda defunta tocando numa radiola para entreter turistas, país de corda, lata de conservas, povoado de uma gente que não se pode conhecer, como sinais de trânsito, figurantes compondo cenários de uma ruína lenta, barricados, resistindo atrás de gestos esvaecidos, como beatas benzendo-se. Levei até ao fim e ao ralo um curso de Direito que me ensinou que as leis são a mais aborrecida das suas ficções, e nos últimos anos escrevo em jornais que chegam diariamente às bancas como barcos de papel à deriva no chafariz de algum jardim feroz. As minhas verdadeiras habilitações? Finjo que acredito na "realidade". Sei que não passa de um conto infantil que põe para dormir, sem esperança, crianças e velhos. Escrevo o que mais vou sabendo numa língua que se sente condenada, mas gosto tanto do seu veneno, dos ecos fundos e inebriantes do que frequentou esta terra, passos tão perdidos de uma raça com o encanto de uma lembrança antiga, e que, por mais triste, não deixa de nos provocar alguma saudade.

quinta-feira, setembro 22, 2016

Joan Margarit em Óbidos e Lisboa

Joan Margarit estará em Óbidos no dia 30, às 17h, para uma apresentação da antologia "Misteriosamente Feliz" no programa do Folio, e no dia seguinte, 1 de Outubro, na Casa Fernando Pessoa, às 18h30.

Captain Fantastic (2016)



8/10

Best of Enemies (2015)




quarta-feira, setembro 21, 2016

Eucanaã Ferraz



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


terça-feira, setembro 20, 2016

sábado, setembro 17, 2016


Passámos o Inverno de 1919-1920 em Sevilha, onde vi o meu primeiro poema em letra de imprensa, "Himno al mar". Apareceu em "Grecia" no número de 3 de Dezembro de 1919 (...). Em Sevilha relacionei-me com o grupo literário formado à volta da revista "Grecia". Os membros deste grupo, dito Ultraísta, propunham-se renovar a literatura, um ramo das artes que ignoravam por completo. (...) assombrou a minha mentalidade argentina saber que os ultraístas sevilhanos desconheciam o francês, e não tinham o mais pequeno indício da existência de uma coisa chamada literatura inglesa. Chegaram mesmo a apresentar-me uma celebridade local popularmente conhecida como "O Humanista" (Miguel Romero Martínez), e não demorei a descobrir que sabia muito menos latim que eu. Quanto à "Grecia", o seu director, Isaac del Vando, era senhor de um "corpus" poético inteiramente escrito por um ou outro dos seus ajudantes. Recordo que um deles me disse certa vez: "Ando ocupadíssimo: o Isaac está a escrever um poema"

- Jorge Luis Borges, "Memorias"


Às vezes uma estupidez com as palavras, pior que inépcia, uma castidade mesquinha, falsa rouquidão numa voz que ainda não disse nada, quantos actos pode ter a raiva?, pode envelhecer em palco os actores, e obrigá-los a enterrarem-se até ao último?, não vais usar essa palavra, pois deixa para mim que me corte nela e cintile inteiro no gume dela visto-me todo uivo da sua formação, as contracções, tanta boca, tamanha voz que ande atrás de mim, me conheça o cheiro e os silêncios, e venha algum dia meter-se nas coisas que escondo, defender-me numa hora amarrada, torcida de nós, a língua mirrada na boca dos deste tempo, ao invés ser o segredo de que as coisas se dizem, de uma vez e por todas, ramo aberto na garganta, arte misteriosa, a voz é no fim a única coisa que importa, teu coração tão luminosamente esculpido, por ela, aos pares e mais, quantos vamos?, as mãos frescas e musicais de serenas descobertas, canção medida, de copo em copo vertida, feita dentro, de inspiração terrestre, como um raio rasgando o céu como a uma fotografia e ali caído num soluço, tínhamos uma idade tão simples, tão fácil de legendar, mas agora, como um cego, pedir-te que me leias para que não me perca, flor de histórias, a lenta coerção de chamas, lambendo umas linhas do papel, o sol ficou curto, a tarde abalou, há-de restar no escuro um caminhito à espera que o diga a chuva, como a atenção pode ser outro lado qualquer, as distâncias põem-se a voar, contra uma paisagem surrada, fuma a lembrar ao corpo a respiração, procura no ar ferir uma forma, imaginar que seja essa a dor do vento.

sexta-feira, setembro 16, 2016

My Grandmother’s Love Letters


There are no stars tonight
But those of memory.
Yet how much room for memory there is
In the loose girdle of soft rain.

There is even room enough
For the letters of my mother’s mother,
Elizabeth,
That have been pressed so long
Into a corner of the roof
That they are brown and soft,
And liable to melt as snow.

Over the greatness of such space
Steps must be gentle.
It is all hung by an invisible white hair.
It trembles as birch limbs webbing the air.

And I ask myself:

“Are your fingers long enough to play
Old keys that are but echoes:
Is the silence strong enough
To carry back the music to its source
And back to you again
As though to her?”

Yet I would lead my grandmother by the hand
Through much of what she would not understand;
And so I stumble. And the rain continues on the roof
With such a sound of gently pitying laughter.

- Hart Crane

Legend


As silent as a mirror is believed
Realities plunge in silence by ...

I am not ready for repentance;
Nor to match regrets. For the moth
Bends no more than the still
Imploring flame. And tremorous
In the white falling flakes
Kisses are,—
The only worth all granting.

It is to be learned—
This cleaving and this burning,
But only by the one who
Spends out himself again.

Twice and twice
(Again the smoking souvenir,
Bleeding eidolon!) and yet again.
Until the bright logic is won
Unwhispering as a mirror
Is believed.

Then, drop by caustic drop, a perfect cry
Shall string some constant harmony,—
Relentless caper for all those who step
The legend of their youth into the noon.

- Hart Crane