terça-feira, janeiro 24, 2017

Sem retorno


A sombra da terra de origem
esvaneceu-se, é como fiapos de nuvem
entre montanhas amenas, oliveiras,
percursos de trem
e um oceano inteiro, um salto
interplanetário, entre estrelas
apenas entrevistas.
O sortilégio do Amazonas, a foz,
as fontes inexauríveis do fluxo vital,
os cipós entrelaçados desde um tempo
de mais esfumada lembrança: enredos transgressivos
possivelmente ancestrais, é como um de-ene-ah!
Tudo se tornou longínquo, lendário,
material para um romance,
para um devaneio solitário.

- Ítalo Moriconi
retirado daqui

O regador e a prisão


Rego as plantas do poeta que guarda prisões
trepadeiras desmaiam, suculentas não obstante
medram, a erva-dos-gatos descabela-se
de um tupperware — pois terá havido
um gato e donos que fizeram filhos
e um caramanchão no terraço onde faz tempo
houve soalheiro remanso e excepção à tortura.

Nas estantes sem leitura restam muitos livros
e o aquecimento central continua em dia
sem gente intra-muros para tanta literatura
é melindroso: a inclinação para descorar
o viço, a ferrenha minúcia da agonia, as
celas quase vazias — como má transladação
o regador prolonga a pena, comuta a vida

- Margarida Vale de Gato

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Mas falando a sério, valeu a pena?


Já não poderíamos escrever como naquela época, nos anos escuros
quando acreditávamos que o poder celeste nos pertencia,
quando era fácil acreditar que escreveríamos a Grande Obra,
o poema de grande fôlego com a música e o significado
que nos dariam os deuses (como não acreditar?),
que a poesia e o anjo, a figura e a forma seriam para nós.
Mas ao olhar o que escrevemos ao longo dos anos
tomamos consciência de que as asas das aves não,
definitivamente não, batiam com um ritmo próprio,
que na verdade não podíamos dizer exactamente
o que queríamos dizer, que em poesia, salvo um ramo
de poetas em cada século, os outros se devem resignar
a serem os lacaios que conduzem o carro dos grandes,
e sem dúvida alguma garanto-vos que, ao menos a poesia
me deu outras coisas: uma maneira de olhar o voo das aves migratórias,
de construir a partir dos sonhos imagens de pinturas e de filmes,
de apreciar mais plenamente a leveza e a doçura do corpo das mulheres,
de admirar muitas tardes e noites as fileiras dos mastros
nos portos, a figueira e a oliveira
no meio do jardim na noite azul de um Jesus Cristo azul,
porque o reino de Deus, não estava perto, mas dentro de nós.
Mas, falando a sério, esta é uma pergunta para mim ou para qualquer outro poeta
que se põe em determinado momento da nossa vida: valeu a pena o sacrifício, valeu a pena abandonar
a aposta da acção para entregar a vida à inutilidade da poesia?

- Marco Antonio Campos
(Tradução de Jorge Sousa Braga)



E caem sobre ti


E caem sobre ti as folhas mortas
nesta pálida tarde em que navegam
vozes sem dono, brisas que carregam
o eco fugaz de antigas ruas tortas,
onde duentes e espíritos se apegam
ao que resta de luz por sob as portas
de pardieiros em cujas ermas hortas
crescem apenas cardos que nos cegam.
Tudo sucumbe ao teu domínio. Cortas,
de um golpe, as raras vênulas que regam
esses despojos com que não te importas
e que ao desterro a sua sorte entregam.
Confessas que a ninguém jamais confortas,
pois caem sobre ti as folhas mortas.

- Ivan Junqueira
retirado daqui

A propósito de "A Menina Sem Estrela", de Nelson Rodrigues


(abre as imagens noutro separador para as ampliares)
 
 

domingo, janeiro 22, 2017

Entrevista a Vasco Gato / Sol, 21 de Janeiro



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)



sábado, janeiro 21, 2017




Bater a uma superfície, nós dados há muito, um pedaço de corda na boca do vento, nós de uma mão que tenha ficado à superfície da terra, e o resto do corpo debaixo, batem até que se faça um ritmo intruso, tudo ainda escuro, nem se sabe quem ouve, de quem é a irritação ao ser desperto, quantos da treva tomam um trago súbito de consciência e dor em todas as partes esquecidas, e o ritmo lá, numa insistência que fosse como o pingar de sangue numa água há muito parada, algo vivo, vibrando e o tempo ferocíssimo e meio descrente de que algo lhe escapou, vem com as ferramentas todas, espalha e instala um antes e depois, fica ali raspando um no outro como pedra em pedra, faísca e pega fogo luz, e o escuro, que à mínima contrariedade se pira, esconde-se no menor orifício, até debaixo de um cabelo, e então umas poucas palavras, só a pele inútil delas, sem sequência, nem relação com nada, deixá-las ali, no branco, dias indagando, o que foi? - umas para as outras, mirando-se, até o vazio estalar no estômago delas, ensinar-lhes a fome, e então se amatilhem por instinto, cercando uma maior, deixando-a alterada, feito bisonte no meio de lobos, e de se aproximarem, o ar, que até ali não havia, agora falta-lhe, e as restantes descobrem-se na inquietação dele, no reflexo do medo que ali nasce sentem os dentes desenhar-lhes a boca, a mordedura, ferram-lhos tomando o gosto espantoso da carne, disso, dessa vulnerabilidade toda Deus recebe a vibração e manda um anjo ao local, tomar nota da ocorrência, e o Diabo, que tem a linha sob escuta, manda dois dos seus, sobre essa planura entretanto já há céu, e com ele uma vertigem tal, põe um peso maior nas palavras, elas sentem-se como mãos, passando uma na outra, uma força capaz de estrangular, e eu vim dar perdido a isto, a pequena caixa onde me espreito, sacudo-a, oiço as minhas ossadas, chocalho a morte mesma, lá dentro as palavras ainda, como pulgas, sacanas já versadas nas entoações cardíacas, escutam, tomam-nos o pulso à distância, se eu lhes desse o teu nome, imagina, pensa no que fizeram há pouco com o bisonte.

A Pedra-Que-Mata, recensão de José Mário Silva

língua morta 069



CANÍCULA,
de Daniel Jonas,
capa a partir de gravura de Pieter Bruegel

[300 exemplares, 96 pp., 10€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com


quinta-feira, janeiro 19, 2017


A um canto, os lábios cerrados feito um punho, lápis de cera, raios de sol, as putinhas das flores e o resto, faço bem barata a ficção, mas não confesso porra nenhuma, nem a ferros, choques, babando de bata nas instituições de um branco que fere, alvura de osso limpo pelas formigas, a lua raspando nas grades, sempre o mesmo canal a zurzir-nos, e jogos de tabuleiro com mais dentes já que peões, nestas linhas nem uma migalha por descuido, prefiro engolir até à última pílula, fritar no óleo bem sujo da eternidade, a corrente a passar de uma ponta à outra pé ante pé, não abro a boca para isso, dizer coisas minhas, nada, um homem se tem algo de seu é a vergonha, larga isso e não há mais volta, nem corda no escuro para se orientar entre as divisões que faz, nem uivo nenhum que lhe erice os pêlos, agora essa de ter de vivê-la e ainda vir contar, passar a limpo esta asneirada, isso seria pior que dar-lhes todos os meus nomes, ainda os lugares e as horas em que vão passar, bufo de si!, que tristeza essa gente toda que à imaginação dá morte com veneno para ratos, quotidiano só ouvi falar, ver com estes olhos não posso dizer que tenha, alheado, tive sempre outros compromissos, dos que enchem a primeira página mas de outros jornais, a gente afasta o azulejo e deixa lá o último número à guarda da humidade, de bichos-deuses, o escuro roendo, tratando do estilo, vão as instruções sobre o homem, o que é, como funciona a doença de ligar os sentidos todos ao mesmo tempo, um avançando sobre o limite do outro, esta respiração diabólica, esse jeito tímido de ficar no seu canto à espera do seu momento feito bomba, passando com a colher de chá a pólvora do tic para o tac, até os relógios no edifício ficarem lerdos, o tempo numa imperceptível câmara lenta, e ir deitar-se à espera na banheira, melhor passar soluções químicas nos versos que essas desesperadas tentativas de intimidar a inspiração, quem escreve curto concentra, põe-se um frio danado nas redondezas, soa entredentes a receita de provocar tremores na cabeça, na pele das coisas, nos astros, nas fezes, mas se fazem os testes estamos limpos, descontando a borboleta que surgiu na ressonância magnética, o paciente lava-se, come, dorme, ou pelo menos deita-se, não recebe visitas, recebe as cartas mais estapafúrdias, algumas perfeitamente ilegíveis, em idiomas desconhecidos, não vemos razão para proibir, tudo considerado parece-nos bastante inofensivo.

terça-feira, janeiro 17, 2017




A Noite da Iguana no São Luiz



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


segunda-feira, janeiro 16, 2017


Hás-de chamar amor a essa necessidade de dar outro passo lá fora, perder um tempo que te torne inconfiável, beber perfumes de um golpe da brisa, ter o acidente de conjugações irrepetíveis, cortar caminho e atravessar esse país onde os bosques rezam. Ainda que te escreva directamente, há hipótese de que os ventos se intrometam, alguma coisa borre, falte a ignição às sílabas de fogo. Assim, no envelope seguem também alguns dentes. Não quero que vá tudo a enterrar junto. Percorreria a terra desfazendo-me se pudesse. Seja isto o que for, de há muito não tenho senão as últimas forças para receber ditadas as cartas de um lugar sitiado. Na minha armadura negra reflecte-se uma paisagem cada vez mais ténue. E há o reverso, a forma como nós próprios estamos sujeitos à desaparição. Falta-me o rosto, sinto ter-lhe perdido os traços nos cadernos, é-me impossível hoje reunir-me num único reflexo, ainda que seja notório que alguém atrás das palavras mexe a cortina, lhe causa uma depressão. Os anos ou as horas que passam não me importam, mas nem os olhos, nem desses a cor eu sei. Uma porta bateu e o eco não acaba de trancar-nos um a um. Não voltei a acender qualquer luz; imagino que pela frente tenha uma terra muito lenta de rosas amargas, sonâmbulas. Vi os anjos alinhados sobre o muro do ódio, refiz o passado a partir daí, mas lendo-o noutras línguas para que não se tornasse demasiado pessoal. Não voltaria a cometer o mesmo erro: admitir aproximações, gestos cuja sombra me atravesse a carne. A distância tornou-se o grande recurso de estilo. Naturalmente tudo o que sejam sentimentos só passam entre aspas. Persigo frases que conheçam o gosto da terra, a persistência de tudo, o peso até dos céus no enlace das nuvens, tempestades como rumores caminhantes, o uivo dos chacais nos desertos de timo, o besouro, o labor mais secreto de um coração no parêntesis de umas asas, longe sentir mesmo o mar envelhecer, tudo isso que vem a fazer da voz a única mala para quem sai perdidamente.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Nua e crua


Sabia que olhavam para si
com a atenção suja
que se dedica aos vizinhos da frente.
Ao homem, à mulher, à filha mais velha,
à miséria de uns e à ingenuidade dos outros,
espreitando-lhes a intimidade pela fenda
da janela entreaberta.
Os passos entre a sala e a cozinha, entre o quarto
e a casa de banho, a televisão, o álcool, o tabaco,
o vai e vem inquieto no colchão,
os corpos nus, as discussões,
o sangue e a violência se se tivesse sorte.
Sabia-o, desejava-o,
mostraria o que houvesse para mostrar.
Talvez estivesse a ser usada, mas queria crer
que ela mesma usava aqueles que a liam.

Não conhecia, em literatura,
outro fim, outra estratégia ou outra moral.

- Madalena de Castro Campos




 Para o Miguel

Espalhadas ao redor da minha paciência
uma porção de coisas
resistindo a toda a utilidade:
baldes, a pá e o arame, gatos de cimento,
pulgas, defuntos, os retratos,
segurando as paredes,
uma ameixa mole num prato...
Tenho uma fome sobrenatural
de objectos naturais, e peço
a cada um que não me deixe só
com as palavras.

Na minha vida é tarde, mal oiço já
os passos do sol e se os frutos caem
sinto-me seguido. Vivo intrigado
com as notas secas, ínfimas
que escapam de troncos húmidos,
o refúgio de bichos que esticam
a corda ao mais espantoso
silêncio. Afinam tudo,
até que toda a terra se converta
em eco
.

Na pedra ainda há pouco a chuva
citava Verlaine perfeitamente,
as poças ficaram calmas
como segredos de escura água estelar.
Não vou dizer que os conheço,
mas sei de tipos a quem o mundo
de verdade pertence,  só têm
os cigarros em que passam perdidos,
isso e um ouvido de pardal,
tão trabalhado
que não lhes escapa um soluço
de bom calibre, nem inversões na brisa,
cortes de sentido ou imagens dessas
que iluminam bruscamente
a nossa época.

Não os encontro por estas ruas,
mas tenho-os lido, sigo esses cuidados
todos: como cada manhã
limpam as armas, como de noite
tiram o chapéu e tapam
o peito quando olham para cima
atentos a movimentações no céu,
como compõem debaixo da pele
os ossos numa certa ordem.

Se em tempos só tínhamos
por horizonte a parede
,
hoje trazemos ao cinto as chaves
desta terra. Sobre ela
as flores projectam sombras
na forma de cruzes. Enterrámos
tudo, impusemos o terror da beleza.
Quando passamos as distâncias
ainda movem os lábios, aos poucos
retomam os idiomas abolidos.

Leio sem descanso.
E se já desapareço, ou me custa
dizer que faço do tempo,
no chão, os vidros do copo partido
de que agora mesmo bebo,
dizem-me que estou acordado:
no piso de cima de um lado ao outro,
agitado, pareço ter companhia –
vou-lhe perguntando
em que guerra nos poderemos salvar?

Por muito que me trema a mão,
o quarto ou o juízo,
isto pelo menos eu tenho: a confiança
de saber que um golpe firme,
de pura intenção, basta para que o meu
verso rompa a mola dos anos.

Neste país que me oculta e me nega,
naturalmente, quero a admiração
do meu inimigo.
Quero que se entregue, traga
a corda e o nó feito. Hei-de cuspir
o caroço da ameixa, podemos
esperar juntos que a árvore cresça.